Fora de lugar, fora do tempo e totalmente fora de propósito, uma luta político-ideológica de baixíssima qualidade infectou a política capixaba como um vírus poderoso. Sua primeira vítima foi o bom-senso. A segunda foi a civilidade. A terceira foi o respeito (inclusive às vítimas reais do novo coronavírus, que nada têm a ver com isso). No pior momento possível, em meio a uma pandemia, essa anacrônica guerra ideológica tem se manifestado em discursos e embates na Assembleia Legislativa, na disputa entre o governo Casagrande e políticos de oposição e, está mais que evidente, na malfadada blitz realizada por seis deputados estaduais ao hospital Dório Silva, na última sexta-feira (12).
Essa guerra ideológica passa longe do interesse coletivo, das reais preocupações das pessoas e das reais prioridades do país e do Espírito Santo no momento. É uma guerra que alimenta um obsessivo “combate ao comunismo” e uma persistente polarização entre “direita” e “esquerda” no país. É uma guerra ditada por Brasília, diretamente pelo Planalto, pela pessoa do presidente da República. Em uma guerra como essa, ninguém ganha. Nem o bolsonarismo.
Na última sexta, voluntariamente ou não, os deputados Carlos Von (Avante), Lorenzo Pazolini (Republicanos), Vandinho Leite (PSDB), Danilo Bahiense (PSL), Torino Marques (PSL) e Capitão Assumção (Patriota)* serviram a essa guerra ideológica que não está salvando a vida de ninguém (muito pelo contrário) e agiram como soldados prontos para cumprir todos os desígnios do seu “Capitão”, inclusive os piores.
O resultado foi a atabalhoada “visita surpresa” (ou “invasão”) ao Dório Silva, na Serra, a pretexto de fiscalizarem as instalações, as condições de trabalho e o verdadeiro quadro de ocupação dos leitos reservados para pacientes da Covid-19 no hospital estadual. A esta altura, já não cabe a menor dúvida de que a voluntariosa iniciativa foi um erro, por qualquer ângulo que se analise a atitude desses parlamentares, menos pelo que eles fizeram do que pela maneira como o fizeram.
Sim, os deputados, como alegam, têm mesmo a prerrogativa constitucional de fiscalizar o Poder Executivo, incluindo os equipamentos públicos, têm total autoridade para isso e devem cumprir seu papel fiscalizador. Mas há o jeito certo de se fazer as coisas, inclusive esse tipo de “vistoria”, respeitando normas, protocolos e, acima de tudo, as pessoas inocentes envolvidas. Se isso já vale em circunstâncias normais, mais ainda em uma situação anormal como esta, quando há vidas em jogo, inclusive.
A maneira como foi feita a blitz, além de ter deixado um rastro de populismo eleitoreiro nos corredores do hospital, expôs os profissionais da saúde e, o que é pior, os pacientes, colocando em risco a integridade destes.
Segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), o que mais incomodou os profissionais do hospital foi o uso de câmeras sem pedido de autorização, bem como a circulação de deputados e outras pessoas estranhas àquele ambiente por áreas a que só pacientes e médicos podem ter acesso, não por preciosismo, mas por uma questão, literalmente, vital: o protocolo sanitário, que, para a proteção dos próprios pacientes internados, precisa ser cumprido com rigor (mas nesse caso, ao que parece, não foi).
Fora dos círculos de seguidores desses parlamentares, está difícil encontrar alguém que apoie e defenda o modo como agiram. Após uma dura nota de repúdio assinada pela Sesa, o governo estadual apresentou notícia-crime ao Ministério Público Estadual, que pode instaurar procedimento investigatório criminal. Feita como foi, a “inspeção” já mereceu o repúdio da Arquidiocese de Vitória. E até o Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES) emitiu nota pedindo respeito a pacientes, familiares e profissionais de saúde. Marcada pelo voluntarismo, a ação foi parar em destaque no Jornal Nacional da última segunda-feira (15), e não de um jeito particularmente positivo.
Mais um exemplo de que, fora das redes bolsonaristas, essa “fiscalização dos hospitais” não encontra respaldo nem aplausos de ninguém. Presidente estadual do PSDB, o deputado Vandinho tem como grande referência em seu partido, hoje, o governador de São Paulo, João Doria. Pelo Twitter, o mesmo Doria garantiu que, se houver outra tentativa de invasão de hospitais em São Paulo (como a praticada por cinco deputados em um hospital de campanha no Anhembi, no dia 4 de junho), haverá criminalização dos invasores, sejam eles parlamentares ou não. “Lamentavelmente também, uma figura da República incitou outras invasões. Quero dizer que invadir é crime”, disse Doria.
E aí, falando em “figura da República”, temos que falar de Jair Bolsonaro. O sexteto de fiscais hospitalares sustenta que a visita ao Dório Silva já estava marcada e que nada teve a ver com manifestações do presidente. O que torna essa versão muito pouco crível é a “coincidência de datas”: na véspera, justamente na véspera, Bolsonaro incitou seus apoiadores a, literalmente, “arranjarem uma maneira de entrar e filmar” os leitos nos hospitais públicos, para, justamente, averiguarem in loco o nível de ocupação dos leitos. No dia seguinte à “convocação”, os deputados baixam de surpresa no Dório Silva, para fazer, basicamente, o que Bolsonaro sugerira na véspera...
Além disso, esses parlamentares podem até alegar coincidência, autonomia etc. O que não dá para negar é o seu vínculo estreito com o bolsonarismo: três deles foram eleitos pelo PSL; três deles são oriundos de forças policiais; os seis são deputados de direita; os seis fazem oposição ao governo Casagrande (de centro-esquerda); os seis estão no campo político do presidente. Qualquer um desses itens é um problema? É evidente que não! Mas tem esse grupo ligação política com Bolsonaro? É evidente que sim!
Assim, querendo ou não, pela simples cadeia cronológica dos fatos, esses deputados capixabas se associaram a uma fala absolutamente irresponsável (mais uma, aliás), para dizer o mínimo, por parte de quem deveria ser o primeiro a primar pela responsabilidade em cada gesto, ato e palavra, mais ainda num momento como este.
E aí não tem jeito. Você pode pensar, pensar, pensar… Qual é a origem disso tudo? Qual é a explicação para isso tudo? Todas as respostas convergem para Jair Bolsonaro. No fundo é disso que estamos falando aqui. É dele que estamos falando.
Bolsonaro conseguiu transformar a pandemia em uma grande e terrível batalha de sua guerra ideológica pessoal, cujos tiros e morteiros agora também ressoam aqui, em terras capixabas. O resultado é essa infinita polarização ideológica, até durante a pandemia… Uma polarização de extremos, que passa bem longe do centro… do centro do interesse das pessoas. Essa briga político-ideológica não interessa de verdade a ninguém, a não ser a quem se encontra mergulhado até a alma nela.
O interesse maior do cidadão, enfim, passou longe. Isso vale tanto para a declaração inconsequente (a do presidente, na véspera) quanto para a consequência da declaração (a ação dos nossos deputados no hospital).
* Capitão Assumção, segundo sua assessoria, foi ao Dório Silva com os demais, porém permaneceu dentro do carro, no estacionamento do hospital, por apresentar sintomas da Covid-19.
SEM PERDER O RESPEITO
Aos obcecados por Cuba, não custa lembrar: “Hay que fiscalizar, pero sin perder el respeto jamás”.
MAQUIAGEM PARA MAIS
O negócio todo está tão confuso que Bolsonaro, a priori, incitou as pessoas a invadirem e filmarem hospitais públicos para provarem a tese dele (como de hábito, sem base ou prova alguma) de que, na verdade, estão sobrando leitos nos hospitais e os governos estaduais estão escondendo esse fato da população.
No dia 5 de junho, o ex-futuro secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, chegou a declarar (sem base ou prova alguma) que os secretários estaduais de Saúde estão inflando as estatísticas de pacientes para conseguirem mais verbas do governo federal. No dia 11, em sua live semanal (a mesma em que pediu a filmagem), Bolsonaro reiterou a teoria (sem base ou prova alguma).
MAQUIAGEM PARA MENOS
No Espírito Santo, porém, os seis deputados fizeram a blitz, a priori, para provarem o contrário: que estariam faltando leitos nos hospitais estaduais, e o governo Casagrande estaria manipulando os números para informar à população uma taxa de ocupação menor que a verdadeira.
CENA POLÍTICA: O INVASOR DE "CACHANGA"
Na sessão plenária da última segunda-feira, o deputado estadual Danilo Bahiense (PSL), um dos seis que estiveram no Dório Silva na última sexta-feira, mostrou indignação com o secretário estadual de Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), por ele ter chamado de “invasão” a visita surpresa dos parlamentares de oposição ao hospital estadual. “Nésio nasceu em 1982. É um garoto, vem de fora, não conhece o Espírito Santo. Por isso, não conhece a minha história. Já invadi, sim, mas foi muita ‘cachanga’ de vagabundo!”, destacou, com orgulho, o delegado, com muitas décadas de atuação na Polícia Civil do Espírito Santo antes de chegar à Assembleia.