Após uma maratona de mais de quatro horas, postado de pé na tribuna, e sem nem uma ida sequer ao banheiro, podemos dizer que o governador Renato Casagrande (PSB) passou ontem, na apresentação dos seus planos à Assembleia Legislativa, muito mais por um teste físico, de resistência mental e de memória do que propriamente por um teste político.
A memória está funcionando bem. A bexiga, após o esforço, não sabemos. Mas o que vai bem de verdade, como ficou patente, é a relação de Casagrande com o plenário, onde goza hoje de uma base ampla e confortável. Talvez confortável e amigável até demais.
Mesmo descontado o fato de Casagrande ainda ter bem pouco tempo de governo, a tradicional sabatina anual do governador em plenário é uma oportunidade ímpar para os deputados lhe fazerem questionamentos e cobranças e debaterem publicamente com o chefe do Executivo. Mas ontem, como também virou tradição, a sabatina do governador pelos deputados poderia ter sido confundida com uma visita de cortesia, não tivesse sido por um ponto destoante.
O único momento em que houve debate de verdade, com questionamentos críticos ao governador e certa tensão no ar, coube, curiosamente, ao deputado Sergio Majeski, membro do mesmo partido de Casagrande e filiado ao PSB em 2018 a convite do hoje governador. E então pudemos presenciar um momento raríssimo em plenário: de maneira respeitosa e civilizada, houve não só debate, mas discordância declarada. Um deputado ousou dizer que discorda do governador. Este, por sua vez, disse também discordar do parlamentar.
Os questionamentos de Majeski giraram em torno do tema “indicações por critério político”, a seu ver excessivas por parte do atual governo. Havia um senhor elefante flutuando no plenário, embora não citado em nenhum momento pelos dois: Luiz Carlos Ciciliotti, ex-presidente estadual do PSB, recém-empossado conselheiro do TCES, após ter sido eleito para o cargo ali mesmo, pelos deputados, com apoio de Casagrande e voto contrário de Majeski.
Em resposta, Casagrande realizou uma reflexão de bom nível sobre os riscos, para a própria sociedade, embutidos no hábito de se demonizar os políticos e se criminalizar quem faz parte de partidos. “Temos que conciliar as duas coisas (política e técnica). Não dá pra condenarmos a política como se ela fosse a atividade mais pecaminosa da face da Terra.”
O governador mencionou quadros altamente qualificados que pertencem a partidos e compõem a sua equipe de governo, por escolha política dele. E discordou da lei aprovada no Congresso que proíbe dirigentes partidários de integrarem conselhos de administração de empresas. “Nós somos muito bons em condenar a política de forma generalizada. E nós somos políticos. Temos que condenar a política ruim, a indicação ruim. Senão daqui a pouco as pessoas vão exigir concurso para ser deputado”, ironizou Casagrande, arrancando aplausos dos próprios deputados (mas não de Majeski).
“Discordo do senhor. Acho a lei muito boa”, replicou o deputado. “Sei que tem muitas indicações políticas altamente qualificadas. Mas não é a maioria. A gente sabe disso.” Majeski ainda questionou o governador sobre nomeações de pessoas que são investigadas ou respondem a processos na Justiça.
“Eu não tenho discordância daquilo que você pensa. Tenho discordância na intensidade do seu pensamento”, devolveu Casagrande, na tréplica.
Nada disso deveria chamar tanta atenção, eu sei, afinal o parlamento é o espaço propício exatamente para isso. Mas, quando o que deveria ser a regra se converte em exceção, esta precisa ser destacada. Mais ainda quando os protagonistas da contenda são correligionários.
O homem sem face
Secretário de Estado da Fazenda no primeiro governo Casagrande, o economista Maurício Duque foi anunciado ontem para a presidência do Bandes, no lugar de Ângelo Baptista. Duque é mais um filiado ao PSB em cargo de destaque no governo. Perguntamos a Casagrande se isso aumenta a cara do PSB na administração. A resposta: “Duque não tem nenhuma cara de PSB, né? Vamos ser bastante francos nisso, certo? Ele é um economista muito respeitado, atua na área. Ele é um filiado ao PSB sem militância, tá certo? Então ele não tem cara de PSB. Nem sei se continua filiado. Mas é um profissional muito reconhecido e gabaritado”.
Sim, está
Pelo sistema do TSE, Duque continua filiado ao PSB, onde está desde 2003.
Virou o feitiço
No debate com Majeski, astutamente, Casagrande ainda citou o exemplo do próprio deputado, que, de eleito com menos votos para a Assembleia em 2014, passou a deputado estadual mais votado em 2018, graças a seu trabalho unindo o conhecimento técnico à atuação política. “Seu trabalho político deu resultado. A atividade política é vista e é reconhecida pelas pessoas. Nós não podemos desconsiderar a capacidade e a inteligência das pessoas em medir a nossa representação política.”
Quase secretário
Poderíamos acrescentar que o próprio Majeski foi sondado para ser secretário de Ciência e Tecnologia de Casagrande. Não mostrou o menor interesse. Mas teria aceitado examinar, como declarou durante a transição, eventual convite para ser secretário de Educação.