Chamar Casagrande de “esquerdista” ou de “extrema esquerda” também não faz o menor sentido quando analisamos outros dois pontos-chave: seu apoio declarado à reforma da Previdência e o discurso, incorporado por ele, de priorização do equilíbrio fiscal. É o que veremos melhor hoje, encerrando esta série.
No plano dos costumes e nas políticas para algumas áreas essenciais (educação, segurança, sistema prisional etc.), esse segundo governo Casagrande é absolutamente divergente do governo de Jair Bolsonaro na Presidência –
conforme já detalhamos aqui.
Ao mesmo tempo, em algumas políticas econômicas, o governo do socialista é absolutamente convergente com o do presidente Bolsonaro, cuja economia é tocada pelo ultraliberal Paulo Guedes, que acaba de ser escolhido o melhor ministro da Economia da América Latina pela revista britânica GlobalMarket, por liderar um conjunto de reformas que tornam o Brasil um país mais aberto e amigável ao mercado.
Casagrande apoia essas reformas modernizadoras e, neste ponto, também situa-se à direita do seu próprio PSB, cuja direção nacional resiste à agenda econômica que a equipe de Guedes procura implementar. O exemplo mais emblemático é o da própria reforma da Previdência.
Casagrande, é bem verdade,
tinha algumas ressalvas no início ao projeto original saído da incubadora de Guedes: era categoricamente contrário, por exemplo, à proposta de substituição do regime de repartição pelo de capitalização. Mas esse e outros tópicos sobre os quais Casagrande tinha reservas foram retirados durante a tramitação no Congresso, de modo que o projeto realmente aprovado ficou muito próximo ao que o governador socialista esperava.
Trocando em miúdos: o governador “socialista” pretende fazer, aqui no Estado, a sua própria reforma de “viés liberal”, como é tachada por críticos ligados à esquerda.
Ora, para lá de questões ideológicas, o governador, estando na cadeira e precisando administrar as finanças do Estado, sabe bem onde o calo aperta: basicamente, as contas não fecham.
Assim como o federal, o sistema de Previdência estadual é altamente deficitário, a tal ponto que, no orçamento de 2020,
o governo Casagrande prevê a necessidade de aporte de cerca de R$ 2,3 bilhões para cobrir o rombo do IPAJM. É mais do que o total de R$ 1,6 bilhão previstos em investimentos e o equivalente a todo o orçamento da Secretaria de Estado da Educação para o ano. Dinheiro que poderia estar indo para investimentos sociais, se tivéssemos um sistema previdenciário mais racional e menos oneroso para os cofres públicos.
O pedido dos sindicatos não vai dar em absolutamente nada – até porque é bastante discutível a legitimidade deles para fazer provocação como essa. Mas é mais um indicativo da distância entre as medidas concretas do governador e os dogmas partidários da cúpula do seu próprio partido.
O argumento de Casagrande não poderia ser menos “esquerdista”: a necessidade de manter o equilíbrio das contas públicas estaduais. É um discurso muito semelhante ao do seu antecessor no cargo. Um argumento que críticos chamariam de “fiscalista” e, novamente, de “viés liberal”. Nada poderia ser menos “de esquerda” do que negar (ou postergar) reajuste a servidores públicos por preocupação com a boa gestão fiscal.
“Reposição anual de perdas salariais” é uma cláusula pétrea no programa de qualquer partido de esquerda ou extrema esquerda. Para citar um exemplo recente, a proposta constava no plano de governo do advogado André Moreira (PSOL) ao governo do Estado em 2018.
Outro exemplo: apostando contra o Plano Real e tendo o próprio Casagrande como vice, Vitor Buaiz (PT) concedeu um reajuste ao funcionalismo estadual em seu primeiro ano de governo (1995) que foi o estopim da crise política e econômica que marcaria a sua administração.
Sobre semelhanças com o discurso de Hartung, ressalve-se que Casagrande, desde a convenção do PSB em agosto de 2018 – quando lançou as bases da sua campanha e do seu novo governo –, tem sempre o cuidado de frisar que, para ele, o equilíbrio das contas não é um fim em si mesmo, mas um meio para o Estado promover investimentos sociais. Aí, segundo ele, residiria a sua grande diferença em relação ao antecessor.
A bem da verdade, Hartung e secretários dele governaram com menos recursos, mas diziam exatamente o mesmo, em discursos e artigos publicados na imprensa. Hartung afirmou basicamente a mesma coisa em sua última prestação de contas à Assembleia, em 2018.