Nos últimos meses e dias, pelas redes e pelas ruas, vimos e ouvimos algumas vezes, pela boca dos seguidores de Bolsonaro, a narrativa de que Lula não subiria a rampa do Planalto. Aliás, esse era uma das motivações que sustentavam as manifestações em quartéis: impedir a posse do presidente eleito suscitando intervenção militar. Por muitas vezes essa frase ecoou: "Ele não vai subir a rampa do Planalto". A rampa do Planalto se tornou uma obsessão.
Interessante que a rampa evoca ou sugere uma ascensão, uma subida ao Poder. A subida é sempre muito mais que simbólica, ela representa um arcabouço para além da expressão. Na posse deste ano, essa subida foi ainda mais simbólica tanto pelas lentes reais e voluntárias, quanto pelas lentes críticas, ou sensíveis, ou mais apuradas. Aos pés da rampa do Planalto, tinham: negros, indígenas, crianças, idosos, jovens, adolescentes. O Brasil estava aos pés da rampa, aos pés do poder, depois, esse Brasil sobe a rampa com o presidente, de mãos dadas. Vejamos: esse Brasil está/estava aos pés da rampa.
Aqui podemos decodificar que esse Brasil ascende, é elevado, está unido, vai ter lugar no Planalto, no governo, no orçamento. Não será Brasil de um ou de outro, mas um Brasil de todos, da diversidade. O movimento que Lula ou Janja protagonizaram no 1º de janeiro, no início do seu governo, é programático e estratégico. Cabe a nós a devida atenção. Esse Brasil diverso vai continuar no Planalto ou na Planície?
Pela montagem do governo nos últimos meses ficou claro que Lula enfrentará um Brasil exigente, não só na Planície, mas, sobretudo, no Planalto. Conduzir os que estão dentro, seus arranjos, suas costuras. A frente ampla tem um preço na política. Mas há um Brasil na Planície, esperando o Planalto. A planície subiu ao planalto, e o Planalto precisa descer as planícies. Na planície onde estão os desempregados, os famintos, os miseráveis, os catadores, os negros, os indígenas, as matas, os biomas, as crises e, sobretudo, as divisões. Dessa vez, do alto da rampa, não se vê apenas um país aplaudindo e apoiando, mas um país diviso, intransigente, nas ruas e nas redes.
Lula prometeu atender e governar, “cuidar” desses (mais vulneráveis) nos seus discursos, na campanha, no programa de governo e nos gestos. Que a promessa seja sempre uma boa dívida. E que Lula seja um bom pagador. O Brasil do Planalto e das Planícies não pode ser distinto, não pode haver dois “Brasis”. Subir a rampa precisa significar, sempre, descer. Descer aos que não têm, ou não tiveram oportunidades de palmilhar a rampa da vida e da história.
Que seja, de fato, o Brasil da esperança, mas das realizações, das ações, do futuro e do presente.