Desde que a pandemia surgiu no Brasil, surgiu com ela a narrativa e os mestres do negacionismo e da proliferação da doutrina da ignorância. Se por um lado o mundo buscou se escorar na ciência, o Brasil teve uma minoria de discípulos que preferiu seguir a ignorância. A palavra ignorância carrega em si um sentido próprio: estado de quem não está a par da existência ou ocorrência de algo.
A ignorância é parente do negacionismo, andam juntas e se encarregam de fazer seguidores. Alguns chegam a comparar a ignorância com um vírus que infesta e se instala nas camadas celulares da sociedade, gerando consequências drásticas a ponto de colapsar o sistema político e mental das pessoas. Durante toda a pandemia assistimos, embora a ciência tenha mostrado a importância do uso da máscara, imagens que mostravam radicais xingando pessoas que usavam o item para se proteger do coronavírus. As cenas são retrato perfeito do mal que a ignorância é capaz de fazer com um país.
Passados quase dois anos de pandemia, as narrativas insustentáveis seguem fazendo sentido para muitas pessoas e, agora, ao redor da vacinação. Volta e meia, ouvimos ou lemos depoimentos de quem diz: "não tomo essa vacina, o vírus não existe, isso é invenção para ganhar dinheiro", ou ainda "eu tenho fé em 'Deus' e por isso o vírus não me pega".
A onda que atinge uma minoria não é pequena, ela começou lá atrás e segue fluindo sobre o mar da sociedade. Há mais ou menos três meses eu acompanhava uma notícia em que um homem graduado se convencia de que não precisava tomar vacina, usava máscara no queixo, e questionava o comércio híbrido. Há uns 15 dias chegou a notícia de que ele veio a falecer por complicações da Covid-19.
Esse homem (faço questão de não citar nomes, não só por ética, mas porque muitos podem se identificar a partir dos comportamentos, personalidade e crenças desse sujeito), embora graduado, preferiu seguir a ignorância, preferiu ignorar a realidade e a ciência, e colheu as consequências da forma mais brutal possível: a morte.
A ignorância nasceu com o ser humano. Se pararmos para olhar o enredo da História, iremos perceber isso. No tempo da pedra lascada, a ignorância predominava. Os conhecimentos eram escassos. Matar, devorar e usar da força, era defesa. No coliseu de Roma, gladiadores produziam espetáculos de morte e eram ovacionados.
Passados milhares de anos, cá estamos nós. Mesmo com um acesso renomado à ciência, há quem prefira a ignorância. Mesmo tendo recursos de proteção à vida, há quem prefira a morte. Mesmo que tenhamos possibilidade de tocar o real, há quem prefira negar e continuar navegando no mar das convicções sem sentido.
Passados milhares de anos, há quem siga a ignorância e frequente coliseus contemporâneos, aos gritos de indiferença com a morte. O que fazer quando o país chega nesse estágio de loucura em pleno século 21?