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Vida corrida

Neste final de ano você sente que precisa de mais um dezembro?

O importante disso tudo é deixar um pouco o celular do lado, respirar e tomar consciência que um dezembro a mais não vai resolver nossas tarefas, porque nós mesmos somos o tempo

Publicado em 05 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

05 dez 2019 às 04:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira Vinicius Figueira
Calendário Crédito: Divulgação

Levanto às 5h, pego ônibus ou metrô, chego em casa às 19h, tomo banho, sento no computador, faço os afazeres extras e vou até 23h. Essa é a rotina de milhões de brasileiros, inclusive a sua que me lê neste momento. Em tempos tão ágeis e ultravelozes, te convido a pensar, ainda que dentro do ônibus, indo ou voltando do trabalho: para onde estamos indo? Sua sensação é de estar precisando de mais um dezembro para concluir os afazeres de 2019?

Pois bem: me lembro sempre que quando ia a uma academia, bem perto de casa, fazia esteira de fronte à frase de Clarice Lispector: “Mude, mas mude devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade”. Claro que a estampa da expressão da poetisa estava nos impelindo a não fazer exercícios de repetições rápidas, mas pautadas na direção para qual erguíamos ou agachávamos o peso. Todavia, saí da academia (por motivos de tempo - risos), e carreguei comigo essa máxima.

A propósito, minha reflexão de hoje não é apenas para lhe fazer pensar, mas a mim também. Convivemos com uma rotina frenética que muda totalmente nosso jeito de ser gente. Não mais saboreamos, engolimos. Não mais caminhamos, corremos. Não mais conversamos, disparamos mensagens. Não mais fazemos ligação com medo de o assunto prolongar e perdermos tempo, e por aí vai. Pior, um detalhe nos assombra: quem não segue “essa tal velocidade” imposta pela “modernidade”, beira a exclusão do cenário, do mercado, da sociedade.

Carl Honoré grifa: “A velocidade é divertida, sexy, é uma adrenalina. É como uma droga na qual somos viciados”. Parece que estamos mesmo vidrados pela velocidade. Ora porque ela nos traz a concepção de que fazendo tudo rápido, imediato e ligeiro, o tempo ocioso é encurtado e, portanto, mais bem aproveitado. Baseado nesse conceito, podemos notar que o principal objetivo da tecnologia, além de progredir, está pautada, no tempo. Otimizar procedimento, criar mecanismos de instantaneidade, tornar a formalidade do e-mail obsoleta, pois enviar arquivos por aplicativos de mensagens é mais rápido.

Por isso, também eu ou você, vivemos alimentando a premissa de que os relógios estão nos vigiando por todos os cantos, e a gente tentando segurar os ponteiros, mas não dá muito certo. O que tenho aprendido é que por mais que queiramos, a gente nunca vai trair o tempo, porque isso seria como passar a perna em nós mesmos. A substância presente na nossa composição humana é o tempo. O escritor argentino Jorge Luis Borges profetizou: “O tempo é um rio que me arrasta, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo”.

O importante disso tudo é deixar um pouco o celular do lado, respirar e tomar consciência que um dezembro a mais não vai resolver nossas tarefas, porque nós mesmos somos o tempo, porque no fim do tempo, depois de muito exprimido, só vai restar a voz de Mário Quintana em nossos ouvidos: “Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…”. Porque, mesmo acelerando, a gente não vai viver o dobro.

Vinicius Figueira

Vinicius Figueira Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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