Uma vez mais é Natal. Essa data nos sugere duas maneiras de ver para celebrar: uma apenas fazendo memória do passado, olhando para a história e recordando o que aconteceu dois mil anos atrás – um menino que nasce na estrebaria, numa manjedoura, entre um José e uma Maria, alguns animais. Outra equivale a viver essa experiência no hoje da nossa vida e do nosso tempo, considerando que aqui pode ser Belém. E aqui, hoje, pode ser Natal.
A primeira maneira nos permite apenas recordar. Não que não seja importante, aliás, é quase fundamental para não perder a memória e a essência desse evento na humanidade. Assim, não corremos risco de deturpar ou transgredir o real sentido do nascimento de um ser Divino no mundo. Mas podemos ir além.
A segunda maneira nos coloca diante de um desafio, que sugere um movimento: ir para o passado, ver o como tudo se deu, para tentar enxergar isso no presente. Pensar que hoje existem muitas experiências de Natal. Pensar que hoje há gestos, sinais e maneiras distintas que nos levam e elevam a fazer uma experiência de nascimento constante e diário, partindo da mesma essência.
Bom, tanto na primeira maneira como na segunda se trata de um olhar, isto é, uma maneira de ver o Natal. Ver é mais que um sentido humano, mas uma sensibilidade. Tudo passa a ter um sentido, na verdade, pela maneira com que vemos.
Passamos pelo tempo recente, convivendo com uma frase constante de “Deus acima de tudo”. Aqui não se trata de fazer apologia política. Não! Trata-se de olhar para uma frase que, talvez, tenha sido muito usada na política: “Deus acima de tudo”. Vejam: aqui temos uma maneira de ver Deus. Talvez no alto, acima, vendo tudo, sobre as nuvens, reinando e sendo juiz a todo momento.
Por outro lado, pela própria essência do Natal, temos uma outra maneira de ver Deus. Um Deus que não está mais acima, mas no meio. Não mais entre as nuvens, mas entre uma família, não mais invisível, mas humanizado.
Natal é uma maneira de ver Deus. Não estamos diante de um evento histórico, mas de uma maneira de olhar. Nem todos os contemporâneos do evento do nascimento de Jesus deram conta de olhar para ele como Deus. Viram nele um alguém, um bebê. Outros só ouviram falar, mas o ouvir não deu conta de mudar o olhar. Outros o viram como ameaça de poder, outros como alguém muito capaz, muito humano, mas não Deus. Deus continuou lá em cima. Deus continuou/continua preparando o Messias.
Natal é uma maneira de ver. Então, que possa haver neste ano um Natal do olhar, dos sentidos, da sensibilidade, do afeto. E que sejamos capazes de entender que muito mais que um Deus no alto, é um Deus no meio, e que nem sempre damos conta ou espaço de ver Ele nesse lugar. Feliz experiência de Natal para você!