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Democracia

Do populismo ao marketing: como se faz um ditador?

Todos os tiranos da história se apresentaram assim: são donos de uma retórica que sabe com pontos e virgulas identificar a dor, sentir a dor (pelo discurso) e se colocar como remédio

Publicado em 02 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

02 set 2021 às 02:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira Vinicius Figueira
Hitler recebe apoio de nazistas em 1935
Hitler recebe apoio de nazistas em 1935 Crédito: Shutterstock
Hoje, chego ao artigo de número 100, aqui em A Gazeta. Um número expressivo, simbólico e significativo. Chegar a essa marca é sempre oportunidade para voltar ao começo, às origens. O interessante é que o título do meu primeiro artigo aqui, foi exatamente este: “Nove meses de Bolsonaro: o que nasceu no Brasil?”.
Passado esse tempo todo, quase 2 anos, infelizmente, temos respostas duras, tristes e ameaçadoras. Nesse sentido, o artigo de hoje, que sempre prefiro chamar de reflexão, convida-nos para que pensemos: estando nós às portas de um 7 de Setembro, o que nasceu no Brasil nesse trajeto do tempo? Parece-me que soa como muito real que temos hoje no Brasil um presidente muito mais tirano, militante de uma retórica do caos, que sempre se encarrega de percorrer três vias: a do populismo, a do discurso, e a da “verdade própria”.
No último fim de semana, me ative a iniciar uma série cujo nome é bem audacioso: “Como se tornar um tirano”. Ela está disponível na Netflix e possui um formato bastante compacto, simples e objetivo. Os quadros evidenciam a formação da tirania em figuras como: Adolf Hitler, Saddam Hussein, Idi Amin, Josef Stalin, Muammar Gaddafi e a Dinastia Kim, da Coreia do Norte.
Mas as cenas, de alguma forma, se encarregam de transcrever, em cor e som, a realidade do Brasil no atual momento da sua história, através da figura do Bolsonaro. Impressiona o quanto as imagens do século passado falam do Brasil de hoje. Impressiona como estamos imersos numa tirania “disfarçada” de democracia. Para descrever de forma bastante objetiva o que a série se equipara com o Brasil, escolhi três pontos. O primeiro deles é o populismo.
Venhamos e convenhamos, Bolsonaro usa e abusa dessa estratégia muito antes de adentrar o Planalto. Escarrou governos passados e edificou a crença de que ele era a pessoa certa ou se preferir, o Messias, capaz de colocar o país no rumo enveredado por costumes bons, valores cristãos, “civilidade” e ao governo sem corrupção.
Não se assuste: todos os tiranos da história também se apresentaram assim. Tomemos Adolf Hitler e muitos outros. Eles são donos de uma retórica que sabe com pontos e virgulas identificar a dor, sentir a dor (pelo discurso) e se colocar como remédio. Bolsonaro focou a figura do brasileiro de classe média que estava “aborrecido” com a situação do Brasil e estabeleceu pela retórica um processo de identificação com o povo. E rendeu...
Em segundo, temos o seu marketing, que de todas as formas se afeiçoa ou nasce a partir dessa identificação com o público. Bolsonaro liderou um discurso que vendia. Ele soube tocar na demanda e se rotulou como o Salvador. Vejamos como foi fácil para o presidente implementar uma ameaça comunista no país.
Numa mesma sistemática, Hitler dizia que os financiadores de Wall Street e os comunistas russos faziam parte da mesma conspiração judaica e que isso era uma ameaça ao povo alemão. Por mais absurdo que isso pareça, convenceu muitas pessoas. O discurso bolsonarista dá voz aos preconceitos de muita gente.
Por fim, esse discurso se dá não com a verdade, mas com as verdades criadas pelo presidente para conversar com seus militantes, ou se preferir, meliantes. Ele monta um discurso paralelo ao da realidade, e faz ser verdade, a partir do momento que dispara em massa notícias “falsas”, mas com suas verdades. E como diz o ditado: uma mentira contada dez vezes se torna verdade. Imagina milhões de vezes?!
Quando o tirano está formado, ele então se vê com força para colocar em prática o seu projeto maior de ditadura, opressão e restrição. Todos eles seguem a bula. Por ora, com criticidade e muita audácia, podemos ver que a sociedade é capaz de formar a democracia, mas também é capaz de formar um ditador. Vivemos hoje no Brasil, um cenário ameaçador e, quiçá, gememos em dores de parto, na eminência de nascer uma ditadura.

Vinicius Figueira

Vinicius Figueira Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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