Hoje, chego ao artigo de número 100, aqui em A Gazeta. Um número expressivo, simbólico e significativo. Chegar a essa marca é sempre oportunidade para voltar ao começo, às origens. O interessante é que o título do meu primeiro artigo aqui, foi exatamente este: “Nove meses de Bolsonaro: o que nasceu no Brasil?”.
Passado esse tempo todo, quase 2 anos, infelizmente, temos respostas duras, tristes e ameaçadoras. Nesse sentido, o artigo de hoje, que sempre prefiro chamar de reflexão, convida-nos para que pensemos: estando nós às portas de um 7 de Setembro, o que nasceu no Brasil nesse trajeto do tempo? Parece-me que soa como muito real que temos hoje no Brasil um presidente muito mais tirano, militante de uma retórica do caos, que sempre se encarrega de percorrer três vias: a do populismo, a do discurso, e a da “verdade própria”.
No último fim de semana, me ative a iniciar uma série cujo nome é bem audacioso: “Como se tornar um tirano”. Ela está disponível na Netflix e possui um formato bastante compacto, simples e objetivo. Os quadros evidenciam a formação da tirania em figuras como: Adolf Hitler, Saddam Hussein, Idi Amin, Josef Stalin, Muammar Gaddafi e a Dinastia Kim, da Coreia do Norte.
Mas as cenas, de alguma forma, se encarregam de transcrever, em cor e som, a realidade do Brasil no atual momento da sua história, através da figura do Bolsonaro. Impressiona o quanto as imagens do século passado falam do Brasil de hoje. Impressiona como estamos imersos numa tirania “disfarçada” de democracia. Para descrever de forma bastante objetiva o que a série se equipara com o Brasil, escolhi três pontos. O primeiro deles é o populismo.
Venhamos e convenhamos, Bolsonaro usa e abusa dessa estratégia muito antes de adentrar o Planalto. Escarrou governos passados e edificou a crença de que ele era a pessoa certa ou se preferir, o Messias, capaz de colocar o país no rumo enveredado por costumes bons, valores cristãos, “civilidade” e ao governo sem corrupção.
Não se assuste: todos os tiranos da história também se apresentaram assim. Tomemos Adolf Hitler e muitos outros. Eles são donos de uma retórica que sabe com pontos e virgulas identificar a dor, sentir a dor (pelo discurso) e se colocar como remédio. Bolsonaro focou a figura do brasileiro de classe média que estava “aborrecido” com a situação do Brasil e estabeleceu pela retórica um processo de identificação com o povo. E rendeu...
Em segundo, temos o seu marketing, que de todas as formas se afeiçoa ou nasce a partir dessa identificação com o público. Bolsonaro liderou um discurso que vendia. Ele soube tocar na demanda e se rotulou como o Salvador. Vejamos como foi fácil para o presidente implementar uma ameaça comunista no país.
Numa mesma sistemática, Hitler dizia que os financiadores de Wall Street e os comunistas russos faziam parte da mesma conspiração judaica e que isso era uma ameaça ao povo alemão. Por mais absurdo que isso pareça, convenceu muitas pessoas. O discurso bolsonarista dá voz aos preconceitos de muita gente.
Por fim, esse discurso se dá não com a verdade, mas com as verdades criadas pelo presidente para conversar com seus militantes, ou se preferir, meliantes. Ele monta um discurso paralelo ao da realidade, e faz ser verdade, a partir do momento que dispara em massa notícias “falsas”, mas com suas verdades. E como diz o ditado: uma mentira contada dez vezes se torna verdade. Imagina milhões de vezes?!
Quando o tirano está formado, ele então se vê com força para colocar em prática o seu projeto maior de ditadura, opressão e restrição. Todos eles seguem a bula. Por ora, com criticidade e muita audácia, podemos ver que a sociedade é capaz de formar a democracia, mas também é capaz de formar um ditador. Vivemos hoje no Brasil, um cenário ameaçador e, quiçá, gememos em dores de parto, na eminência de nascer uma ditadura.