Hoje, se não tivéssemos pandemia, viveríamos a tradição dos tapetes, da arte da honra e do culto a um Corpo. Católicos do mundo inteiro se reúnem para celebrar o Corpo. É curioso o fato de que as religiões sempre parecem chamar, ou vinham chamando, nossa atenção para cuidar do espírito, porque o corpo vai se desfazer. Hoje, somos motivados a transcender esse pensamento e perceber que o corpo é expressão, é vida, é marca, é casa, é morada. Se pararmos para pensar, Corpus Christi é uma festa para festejar o Corpo, a dimensão divina encarnada.
Escrevendo esse artigo, me lembrei de Fernanda Montenegro, que numa entrevista acerca do seu último livro, disse: “Envelhecer é um privilégio, uma arte, um presente. Somar cabelos brancos, arrancar folhas no calendário e fazer aniversário deveria ser sempre um motivo de alegria. De alegria pela vida e pelo o que estar aqui representa. Todas as nossas mudanças físicas são reflexo da vida, algo do que nós podemos nos sentir muito orgulhosos". E completou: "As rugas são um sincero e bonito reflexo da idade, contada com os sorrisos dos nossos rostos. Mas quando começam a aparecer, nos fazem perceber quão efêmera e fugaz é a vida".
As falas de Fernanda em direção às rugas, ao cabelo, às características do corpo, mostram que cada parte dessa estrutura carnal é sagrada. E sagrado não é apenas porque o outro disse, mas o que para mim faz sentido. Por isso, Frei Betto chega a dizer, em artigo recente, publicado no Dom Total: “Na festa do Corpo de Cristo, deixarei meu corpo flutuar em alturas abissais. Acariciarei uma por uma de minhas rugas, desvelarei histórias, apreenderei, na ponta dos dedos, meu perfil interior. (...) Não mais farei de meu corpo mero adereço estranho ao espírito. Serei uma só unidade, onda e partícula, verso e reverso, anima e animus”.
Perceber o corpo, suas marcas e suas expressões nos faz perceber também que somos únicos. A questão é que vivemos em um tempo no qual passamos a ter o desejo de nivelar, pela métrica estética e social, as manchas, as rugas, as expressões. Aparar esses sinais parece me fazer menos autêntico e mais parecido com o padrão que, por sinal, passamos a aderir de tal forma que corrobora até com a autoestima, nos dando a ilusão de que se tivermos enquadrados num padrão de beleza, seremos mais felizes e satisfeitos.
Hoje, em razão da pandemia, não faremos procissão com o Corpo na forma de pão, mas poderemos fazer uma procissão pelo nosso próprio corpo, parando e tocando nas expressões com sensibilidade, e perceber que cada traço, cada relevo, só eu tenho e são marcas só minhas.
Que assim possamos “não recorrer ao bisturi das falsas impressões. Nem ao espectro da magreza anoréxica. O tempo prosseguirá massageando nossos músculos até torná-los flácidos como as delicadezas do espírito" (Frei Betto).