Na última terça-feira (13), um episódio se repetiu no âmbito do jornalismo e da comunicação brasileira. Uma vez mais a jornalista Vera Magalhães da TV Cultura é atacada por um deputado em debate para o Governo de São Paulo, no qual estava a fazer uma pergunta dirigida a Tarcísio de Freitas.
No fim do debate, o deputado se aproximou dela e repetiu as mesmas palavras do presidente Bolsonaro no debate da Band: "Uma vergonha para o jornalismo". E ainda questionou o valor do seu contrato de trabalho. Por fim, grosseiramente, xingou a jornalista.
Nesta quarta-feira (14), muitas matérias deram conta de evidenciar o ataque à mulher, à figura feminina, outros destacaram a essência do bolsonarismo, quanto a mim, desejo tomar esse caso para refletir sobre a liberdade, essa palavra tão dita pelos apoiadores do presidente como garantia de democracia. A questão é: que liberdade é essa?
Há uma busca pela liberdade. Ora, mas não estamos numa democracia? Que liberdade é essa que se busca? Pois então, trata-se de uma liberdade capaz de se dirigir ao outro com o pior que existe em nós. Liberdade de agredir, de eliminar, liberdade de não aceitar o diferente, liberdade de viver numa bolha, liberdade de acreditar no que não é verdade em nome da verdade. A liberdade que eles pregam, mata, agride, fere. Essa liberdade não é livre, porque ela está fadada a existir em função da crença, da verdade absoluta, de si mesmo.
Este ano, muitos fatos de violência política chamam a atenção das pautas e dos jornais por conta da onda da polarização. O fato é que conflitos políticos, alguns culminados em violência, sempre existiram, todavia, nós temos um ingrediente a mais, o ódio. Uma parcela da sociedade perdeu a capacidade de dialogar, outra está intimidada. Não se conversa mais no branco do olho, mas com sangue nos olhos. Ser confrontado, questionado, perguntado é motivo o bastante para acionar o gatilho do ódio e destilar horrores que geram violência.
Pelo que parece, essa teoria de liberdade tem liderança, tem mestre e tem discípulos. O mestre diz uma frase, os seguidores repetem, e ela se alastra e contagia. Talvez nestas eleições não vamos conseguir “eleger um presidente”, mas derrotar o ódio, a violência, a doença da polarização, a divisão, derrotar “essa tal liberdade”, para voltar a termos liberdade com espaço de pensar diferente.
Neste ano, o que está em jogo não é um plano de governo, mas uma forma de ser de um país, ou de uma parcela de pessoas do nosso país que pregam a liberdade com ódio. Quanto a Vera Magalhães, nossa solidariedade, nosso desejo de justiça.