Havia um tempo em que se parava para escutar o corpo e a mente. As saídas para as agruras da vida tinham um pouco de artesanal. Escutar uma música romântica alentava as dores do amor. Chá de camomila ou maracujá ajudava a ter uma noite de sono serena. Um tempo em que conseguíamos parar para sentir. Respirar. A alternância entre estar bem e estar mal era suportada como coisas da vida. E estava tudo bem.
O ritmo da vida atual nos impõe a necessidade de uma plena satisfação, ausência de dor ou eliminação do sofrimento como uma necessidade ilimitada. Ao menor sinal de que algo não vai ficar bem, recorre-se a medicamentos. Antidepressivos reorganizam a vida, servindo a um sistema que não pode esperar o tempo dos corpos que, muitas das vezes, precisa de pausas para recuperar-se.
Viver em uma sociedade da anestesia significa não admitir a dor e submeter-se a subserviência ao sistema que não pode esperar o ritmo do humano, este que é composto de movimentos e pausas, em um ritmo sincopado. A sociedade capitalista precisa de indivíduos que descansem rápido e com facilidade, garantindo-se uma dinâmica frenética visando ganho rápido e continuo.
Com isso, percebe-se uma vida cheia de ausência de emoções em que a percepção de não perceber nada começa a ser a regra. Passamos a ser telespectadores anestesiados de uma vida em que deveríamos ser protagonistas. Controlar as explosões humanas e domesticar a vida passa a ser determinante para que as pessoas se encaixem no sistema que precisa controlar para garantir seu funcionamento.
A psicopolítica narcocapitalista, termo trabalhados pelo filósofo belga Laurent de Sutter, traz a ideia de que os corpos na sociedade atual são funcionalizados mediante a disfunção causada pela medicalização da vida, o que acarretará consequências que ainda não se pode mensurar, para além das questões áridas de saúde mental que já são uma realidade entre nós.
Processos de trabalho, relacionamentos, vida social e confrontos interna corporis são vividos, em muitos casos, com suporte medicamentoso. Em outros casos o suporte, que deveria ser temporário e coadjuvante, dá lugar às dependências químicas perenes. Acatamos um modo de vida em que o controle das emoções e razões deveria ser conduzido pelo ser humano, mesmo que isso demande tempo, diálogo, paciência e leituras da própria existência, mas passa a ser regulado por substâncias exógenas.
Controlar, reter e conter são verbos que servem a uma sociedade que perdeu as condições de viver seus problemas, mas que esquece que esses a compõem.
Precisamos ouvir nosso corpo e nossa mente e aprender a responder a cada dor nova que aparece, como bem me ensinou, recentemente, um dileto amigo que enfrenta um severo tratamento de saúde. Sem medo de ser panfletária, é preciso, vez ou outra, pausar a vida, para que ela continue logo adiante, e a gente possa caminhar numa calçada e não adentrar a farmácia da próxima esquina.