Por que é tão difícil, ou quase impossível, fazer política com afeto?
Essa pergunta, de uma forma ou de outra, povoa os pensamentos das pessoas que possuem um compromisso ético-político com a sociedade e se envergonham do que temos assistido dos poderes constituídos e durante campanhas eleitorais. Atentados, ameaças, mentiras, desrespeito e agressões compõem um repertório triste do modo de existir coletivamente, que tem por objetivo o bem-viver.
Temos que pontuar que não existe “fazer política”. Política é algo que existe desde sempre, é nato do ser humano, não sendo, portanto, sinônimo de partido político. Esse que é uma invenção moderna, surgida no século 19 na Europa Ocidental e nos EUA.
Derivada do termo grego “polítikos”, a palavra política, se referia aos cidadãos que viviam na “polis”, cidade, de forma organizada. Nesse sentido, onde houver duas ou mais pessoas haverá a necessidade de definir regras de convivência, limites de ação e deveres comuns. A política acontece justamente no ato de existir em conjunto. Sendo assim, a origem da política remonta à participação comunitária, à vida coletiva.
Definido como animal político por Aristóteles, filósofo da Grécia Antiga, o ser humano, inconscientemente, busca a vida em comunidade, como forma de sobrevivência. As necessidades materiais e emocionais de todas as pessoas só podem ser satisfeitas pela convivência com o outro. O que se distancia do que estamos habituados a ver e pensar sobre a política, como algo limitado aos “políticos profissionais”, e longe do nosso cotidiano.
E em muitos casos, como temos visto de forma lamentável, referem-se à política como uma arena de combate em que o objetivo é eliminar o outro, em algumas das vezes com a violação da vida. Política não é violência, e nem forma de obter vantagem. E não existe “político profissional”, todos nós somos políticos.
Amparados pelos pensamentos de Aristóteles, aprendemos que o animal político se diferencia das outras espécies pela sua capacidade de se comunicar em nível complexo. Exigindo um exercício de diálogo e compreensão da diferença do outro, e que todos precisam coexistir, pois, diferente disso é a barbárie.
Utilizando-se da linguagem para se comunicar, imaginar o futuro e criar regras para compartilhar o mesmo espaço, a política acontece na dimensão relacional, e não cabe, em hipótese alguma, a violência. Pelo contrário, a política é lugar do afeto e do bem-viver, pois assim alcança o seu objetivo primevo.
Para Aristóteles, a política começa na convivência familiar, e depois se expande para o resto da sociedade. Então, não há possibilidade de escapar da política. Essa compreensão deve atingir a todas as pessoas, em todos os atos e fases da vida.
É preciso beber política e afeto no café da manhã, para que não saiamos por aí azucrinando o outro, espalhando mentiras, desrespeitando aquele que nos opõe e dando cadeirada, achando que estamos “fazendo política”.