A Organização Mundial de Saúde, desde 2021, adota as letras do alfabeto grego para identificação das variantes do coronavírus, tendo por objetivo evitar discriminação e estigmatização de países onde foram detectadas. Até o presente momento, a humanidade tem enfrentado sete variantes, as mais conhecidas, como a Delta e Alfa, e outras nem tão popularizadas, como a Mu e Lambda.
O alfabeto grego foi desenvolvido no século IX a.C com o objetivo de escrever a língua grega, perpetuando-se pelo tempo da história, sendo até hoje utilizado em várias áreas do conhecimento, principalmente nas ciências exatas. Composto de 24 letras que tem um símbolo e valor específico definidos.
Na última semana de novembro foi publicizado o espraiamento de mais uma variante, a Ômicron, décima quinta letra do alfabeto, identificada na África do Sul, com mais de trinta mutações diferentes e, mais uma vez, o mundo ficou em alerta. Vale o destaque de que dias depois se levanta que a variante já circulava em outros continentes. Com isso, o mundo inseriu em seu repertório mais uma letra grega, que já se populariza e vira piada e memes.
Contudo, a sua revelação a partir do continente africano, com baixíssima cobertura vacinal, é um analisador que merece relevo e reflexão, no que concerne não cuidar somente daqueles que tem poder político e econômico, mostrando que cuidados e atenção devem ser para todas as pessoas, caso contrário o prejuízo é coletivo, e disso não temos como fugir.
Temos o “centro” do mundo (Europa e EUA) com quase 80% e 70% da população vacinada, respectivamente, e a periferia (África) com cerca de 7% vacinados. Cristaliza-se a reprodução sistêmica-histórica de desigualdades. A saída de pronto foi propor o fechamento das fronteiras, opondo-se diametralmente ao passando, quando todas as fronteiras da África foram abertas para praticar uma das maiores violações de direitos humanos da história. É curioso e aterrador como repetem-se as práticas, abrem-se as fronteiras para as violações, fecham-se as fronteiras para a proteção.
Digno de nota é o duríssimo e consciente prognóstico do virologista camaronês Jonh Nkengasong que apresentou há quase um ano que o “mundo desenvolvido” cumpriria o esquema vacinal, e de forma subsequente imporia restrições de viagem à África, se tornando este, o continente Covid.
Tem-se na África, além da baixa cobertura vacinal, uma população jovem assintomática, meios de detecção e rastreamentos deficientes, sistemas de saúde frágeis e logísticas ineficientes, criando a ambiência favorável para a mutação, que, consequentemente, atinge o mundo todo.
A sentença está prolatada: ninguém estará seguro nessa pandemia, até que todas as pessoas estejam seguras. Ademais, cabe lembrar, que existem outras formas para se conhecer alfabeto grego, que não é pelo sofrimento e pela dor da perda das pessoas. Proteger a África, é proteger o mundo.