As imagens de um MC sendo conduzido à uma Delegacia do Rio de Janeiro no final de maio nos leva a refletir que o que incomoda a sociedade no aspecto criminológico da conduta de uma pessoa é quem ela é e de onde vem, e não a prática do crime e o dano que provoca.
O espetáculo da prisão de um MC negro periférico, longe de nos conduzir a um debate panfletário, como muitos podem dizer no afã de descredibilizar a pauta, deve ser analisado em suas diversas camadas e prismas, mas jamais sem relativizar a realidade dos fatos.
Os registros de várias menções do MC a uma facção criminosa não esgota o debate, mas também não é o fato per si, afinal, se toda prática criminosa fosse responsabilizada, com a aplicação do Direito e a feitura da Justiça de forma equânime, um ex-presidente, à época deputado federal, deveria ter sido preso ao fazer apologia ao crime de tortura, citando um torturador ao votar pelo impeachment em 2016. O MC em comento foi preso pela alegação de fazer apologia ao tráfico por mencionar a facção.
Enquanto um teria feito apologia ao crime de tráfico de drogas por mencionar o nome de uma facção em seus shows, o outro cometeu o crime de apologia à tortura ao reverenciar a memória de um reconhecido torturador da ditadura civil-militar
Com isso temos nitidez que, para a justiça burguesa, mais importante do que o crime é aquele que o comete, revelado pela farsa da prisão e soltura do MC carioca, preso por “apologia ao crime”, quando se monta um espetáculo midiático que cristaliza a justiça seletiva, consolida a hipocrisia, impõe o silenciamento e pavimenta a busca por bodes expiatórios. Sedimentando qual a política criminal que o Estado concorre e persegue.
Quando o sistema de justiça, representando o Estado brasileiro, elege um o MC como bode expiatório das mazelas sociais, assume a posição cômoda de não enfrentar os reais problemas da nação, aqueles que alimentam o desejo de jovens por se vincular a facções criminosas: a desigualdade crônica e a ausência do poder estatal na garantia de direitos sociais, sobretudo nos territórios periféricos.
Nenhum espaço é deixado vago, a ausência do Estado é o que garante a possibilidade de as facções exercerem o papel de protagonistas nesses territórios esquecidos por todos, a não ser pela polícia.
É imperativo que se implemente uma política de segurança que encare o tema das facções sem cinismo e enfrente a questão como ela merece ser tratada, com inteligência e respeito aos Direitos Humanos, deixando os espetáculos para os artistas. Caso contrário teremos que dar razão ao sociólogo francês Loïc Wacquant, quando pontua que “a segurança é concebida e executada não tanto por ela mesma, mas sim com a finalidade expressa de ser exibida e vista, examinada e espionada: a prioridade absoluta é fazer dela um espetáculo, no sentido próprio do termo”.