Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Brasil

O novo governo e a reinvenção do controle social

Os dispositivos de controle social previstos pela Constituição de 1988 nos últimos anos foram asfixiados. Conselhos, conferências, coletivos e fóruns, entre outros, foram desidratados das mais variadas formas

Públicado em 

26 dez 2022 às 00:15
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Às vésperas do novo governo, que traz ventos de democracia, a participação social configura-se como um convite à reconstrução do Brasil, mas precisará ser reinventada.
Os dispositivos de controle social previstos pela Constituição de 1988 nos últimos anos foram asfixiados. Conselhos, conferências, coletivos e fóruns, entre outros, foram desidratados das mais variadas formas, e quase sempre por meio de discursos amparados na legalidade, economicidade ou burocracia.
A real intencionalidade nunca é declarada. Em jogo dúbio, os que estão de passagem nas posições de comando sempre apresentam as justificativas para adoção das medidas que, ao fim e ao cabo, têm objetivo de fazer calar aqueles que se propõem a fazer o controle social. O Estado nunca fica confortável quando existe uma sociedade civil ativa e que faz a diferença. Esquece o Estado que a dialética tensa é a essência da democracia.
De certo, a transição democrática, que trouxe como legado a necessidade da existência dos dispositivos de controle, tendo a sociedade como detentora legitima do poder, teve a capacidade de construir canais para assegurar a participação popular, para além dos espaços já conhecidos, na elaboração, execução e monitoramento de políticas públicas.
Palácio do Planalto, em Brasília
Palácio do Planalto, em Brasília Crédito: Beto Barata | Planalto
Nesse sentido, os direitos prescritos no caderno constitucional de 1988 clamavam pela emergência de mecanismos de controles democráticos não eleitorais, por meio dos quais toda a qualquer pessoa, direta ou indiretamente, incidisse nas políticas públicas, das mais diversas formas, para que os direitos fossem garantidos no mundo da vida e não apenas na letra fria da lei.
Os conselhos são exemplos emblemáticos de como a sociedade pode contribuir para o funcionamento do Estado Democrático de Direito, muito além do circuito eleitoral que faz parar a máquina estatal para aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade, mas a mantém a pleno vapor para manutenção do status quo. Muitos desses dispositivos de controle foram destruídos, e muitos deles somente existem na formalidade.
Urge a reconstrução dos dispositivos de participação social. De caráter mais popular do que institucional. Com alcance digital, sem perder as ruas. Eis o desafio imposto à sociedade civil, mesmo diante da assunção de um governo que promete ser popular.
Imperativo também considerar a ocorrência da substituição incremental de canais participativos pelas ouvidorias eletrônicas, que afasta o calor humano e escuta qualificada, com a justificativa de mais eficiência e transparência.
Nesse sentido, é digno de nota lembrar que, concomitantemente ao desmonte de políticas participativas, houve a implementação de um novo marco legal de governo eletrônico no país, como canal de controle social de políticas públicas. Com a narrativa do apelo ancorado na necessidade de se curvar à era tecnológica, em substituição ao repertório anterior de cunho histórico-político, passaram a ser regulados a partir de um novo repertório participativo, estabelecendo-se como novo controle social.
Diante dessa aporia, um desfio está posto, qual seja, de reinventar o controle social, em uma sociedade algorítimica-contemporânea, em que a narrativa diz que a luta social é coletiva, mas na verdade ela se faz no campo individual.
A consolidação de uma normativa para a participação social, a instituição de uma área de governo para esse objetivo, o estabelecimento do relacionamento entre a área de transparência e gestão de dados, a consolidação de uma metodologia de coleta de informação cidadã com a implementação de métrica de qualidade e a integração de órgãos de controle institucionais com os procedimentos participativos podem ser alguns caminhos para fortalecimento do controle social de políticas públicas, entre tantos outros que devem ser construídos.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Nó do pacto federativo: o subfinanciamento das médias e grandes cidades
Imagem de destaque
O Brasil que não para de dever, e a conta que todo mundo paga
Imagem de destaque
Matando saudades do Brasil

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados