Vivemos em uma sociedade em que basta cochilar que o retrocesso encosta. É impressionante. E com isso, o Estado Democrático de Direito treme estarrecidamente e a Constituição é vilipendiada gravemente. Demoramos tanto tempo para alcançar um tempo de garantia de direitos e respeito à essencialidade humana, que basta um acontecimento para ameaçar a conquista.
Na semana passada, a proibição da utilização de um livro premiado e que fala de problemas sociais profundos nos convida a refletir o que esperamos dos resultados nas nossas ações. Os tempos são outros, mas a lei da física não muda, e aplica-se às ciências sociais. Toda ação provoca uma reação. Isso tem mais do humano do que do exato.
No dia 7 tivemos a notícia de que os governos estaduais de Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná determinaram o recolhimento dos exemplares do livro “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, com alegações fracas e ancorada no racismo, em repetição a práticas de censura típicas das ditaduras militares.
O livro, publicado em 2020, conta a história de um jovem negro que teve o pai assassinado em uma abordagem policial, o que de saída já desvela de forma nua e crua dois assuntos constitutivos na construção da sociedade e estado brasileiro: racismo e violência estatal.
E mais, coloca em emersão uma dificuldade que alguns grupos possuem em compreender que interesses públicos e privados não podem se misturar e que a moral não pode fazer morada em decisões que precisam ser compostas de um ingrediente ético-coletivo.
Os discursos de enfrentamento do racismo em todas as suas formas não reverberam na prática, que a cada dia se mostra mais violadora, indicando que estamos muito longe de resolver essa questão. A pele preta ainda é considerada um defeito de cor, e não mais ignora-se o incômodo que isso é. Vivemos um confronto diário, que se estende às disputas que não são mais submergidas.
Trabalhar essa questão tem sido uma necessidade em todos os lugares, inclusive naqueles que passávamos ao largo.
O reconhecimento de que o racismo se encontra em nossa família, em nosso trabalho, em nossas relações, em nossa vida social e particular tem trazido incômodos com os quais ainda não sabemos lidar.
Isso acontece pois não basta reconhecer que se é racista, mas o que se faz com o racismo. E aqui está a questão, pois requer uma mudança essencial e profunda em quem nós somos e como vamos abrir mão dos brancos privilégios.
É por isso que um livro que rasga a história branca e coloca ao avesso as dores sufocadas incomoda tanto. Fiquemos atentos a quem quer proibi-lo.
Quanto ao outro assunto do livro, a violência estatal, merece outro artigo. Hoje ficamos por aqui.