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'Nunca perdi a esperança', 'a paz retorna': familiares de vítimas do voo 447 reagem à condenação da Air France e da Airbus

As empreas foram condenadas por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) após decisão da Justiça da França.

Publicado em 22 de Maio de 2026 às 10:32

BBC News Brasil

Publicado em 

22 mai 2026 às 10:32
Imagem BBC Brasil
A jornalista Adriana Francisca Van Sluys, uma das vítimas do voo 447, estava viajando para a Coreia do Sul a trabalho Crédito: Acervo pessoal
No dia 31 de maio de 2009, Adriana Francisca Van Sluys, de 40 anos, embarcou no voo 447 da Air France. Assessora de comunicação da Petrobras, a jornalista viajava a trabalho para a Coreia do Sul.
Mas ela nunca desembarcou no Aeroporto Charles de Gaulle, na capital francesa. O Airbus A330 em que viajava caiu, em meio a uma tempestade, quando fazia o trajeto entre o Rio de Janeiro e Paris. Adriana foi uma das 228 vítimas do voo 447 da Air France.
Quase 17 anos depois da tragédia, que matou 216 passageiros e 12 tripulantes, a Justiça francesa condenou por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) a companhia aérea e a fabricante de aeronaves.
"Era uma decisão que aguardávamos ansiosamente desde 2023, quando as duas empresas foram inocentadas. Tínhamos todas as razões para crer na reversão daquela decisão absurda", afirma o administrador de hotelaria Maarten Van Sluys, de 66 anos, irmão de Adriana.
"No meu caso, nunca perdi a esperança. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, a justiça seria feita. Para isso, atuamos de forma resiliente e estratégica."
Quem também estava no voo 447 da Air France era a médica Bianca Machado Cotta, de 25 anos, e o marido, o procurador federal Carlos Eduardo Lopes de Mello, de 33. Recém-casados, estavam em viagem de lua de mel para a França.
Imagem BBC Brasil
Renato Machado Cotta com a filha Bianca, uma das vítimas do acidente Crédito: Acervo pessoal
"Recebi a notícia com serenidade. Sabia que, um dia, as evidências prevaleceriam. Como nada traria minha filha e meu genro de volta, continuei ao longo dos anos as pesquisas no tema que deflagrou o acidente. Esperava pelo momento de encerrar o ciclo do meu luto", afirma o engenheiro Renato Machado Cotta, de 66 anos, pai de Bianca.
"Agora que tudo foi esclarecido e adequadamente atribuído, a paz retorna em meu íntimo. Estou particularmente feliz pelas famílias dos pilotos."
Vice-presidente da Associação de Familiares das Vítimas do Voo Air France 447, Maarten declarou que ainda não está claro se cabe recurso. "Essa demanda judicial reabre feridas. Mas a vontade de lutar por nossos familiares supera todas as dores que sentimos a cada nova etapa."
"O recurso é um direito das empresas. Pelo que entendi, na Corte Suprema, não são reanalisadas as provas, mas o processo legal em si e a aplicação da lei. Talvez o tempo não se estenda tanto", pondera Renato.
A Air France e a Airbus foram condenadas a pagar, cada uma, uma multa de 225 mil euros, o equivalente hoje a cerca de R$ 1,3 milhão. Segundo Maarten, esse é o valor estabelecido pela Justiça francesa para essas situações.
"Muito além dos valores monetários, trata-se de uma questão moral", afirma Maarten. "Queremos acordar todas as manhãs sabendo e podendo dizer quem foram os culpados pela tragédia. Aliás, insisto em não chamar o que aconteceu de acidente. Foi um homicídio, como agora a Justiça determinou em sentença."
"O valor é simbólico, mas a condenação em si, não. Tanto que as empresas já se manifestaram quanto a intenção de recorrer. Efeitos econômicos colaterais devem ocorrer", acrescenta Renato.
Imagem BBC Brasil
Queda do avião da Air France matou 228 pessoas em 2009 Crédito: Reuters

Dos 216 passageiros a bordo, 59 eram brasileiros

"Adriana era uma pessoa adorável. Era jornalista e defensora de causas humanitárias", descreve Maarten. "Caso eu estivesse naquele avião, ela faria tudo que fiz para conseguir justiça."
"Adriana viveu 40 anos bem vividos. Por onde andou, fez amigos e espalhou alegria. Todos os dias eu me lembro dela e a considero um farol para a busca de virtudes."
"A saudade é companheira no dia a dia, nem eu gostaria que fosse diferente", arremata Renato, o pai de Bianca. "Lembro de tudo, desde a primeira fralda até o seu lindo casamento, que eu não sabia que era uma despedida deles."
O Airbus A330 desapareceu dos radares durante uma tempestade, e seus destroços foram encontrados após uma longa busca em uma área de 10 mil quilômetros quadrados do fundo do mar. A caixa preta foi encontrada após meses de buscas em alto mar, em 2011.
Todos os 12 tripulantes e 216 passageiros a bordo morreram quando o avião caiu no mar de uma altura de 11.580 metros — tornando-se o acidente mais mortal da história da aviação francesa.
Durante as alegações finais do julgamento em novembro, os promotores afirmaram que o comportamento das empresas havia sido "inaceitável", acusando-as de "proferir absurdos e inventar argumentos".
Tanto a Airbus quanto a Air France negaram repetidamente as acusações, e analistas jurídicos acreditam que elas vão recorrer novamente.
A BBC entrou em contato com a Airbus e a Air France em busca de uma manifestação das empresas.
O acidente aéreo desencadeou uma complexa operação de resgate em uma área remota do Oceano Atlântico, a mais de 1.127 km da costa da América do Sul.
Durante as buscas iniciais, o governo francês ficou responsável pela investigação do acidente, enquanto as forças brasileiras assumiram a responsabilidade pela recuperação dos corpos.
Nos primeiros 26 dias de buscas, 51 corpos foram recuperados, muitos ainda presos aos cintos de segurança.
O pai de uma das vítimas disse à BBC News Brasil em 2019 que só conseguiu enterrar os restos mortais do filho mais de dois anos após o acidente. Seu filho, Nelson Marinho Filho, um engenheiro de 40 anos, quase perdeu o voo que partiu do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, e foi o último a embarcar, segundo funcionários da Air France.
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