Em 21 de setembro de 1989, era instituída a ABMCJ (Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica) no Espírito Santo. Uma organização da sociedade civil que congrega juristas capixabas. A ABMCJ nasce no Espírito Santo a partir da homônima nacional, esta fundada em 1985, com o objetivo claro e definido de contribuir para o estudo crítico do Direito e desenvolver ações com o intuito resgatar a potência das mulheres de carreira jurídica na luta cotidiana pela igualdade de gênero e dignidade nos ambientes do meio jurídico.
A ABMCJ, ao congregar de forma irmanada e solidariamente mulheres que ocupam cargos e posições de natureza jurídica – advogadas, defensoras, delegadas, promotoras, magistradas, ministras, procuradoras, professoras, revela-se muito mais, sendo uma genuína trincheira de resistência em um ambiente que sempre fora cadastro de reserva para o homem.
O mundo do Direito, infelizmente, ainda é um ambiente de produção de violações, em que mulheres ainda são silenciadas e diminuídas. As formas de discriminação são as mais diversas e acabam por reproduzir todo um ideário e cultura machista que reverbera na sociedade, fruto de um sistema que ainda é misógino.
Uma mulher em cargo de poder e decisão incomoda muito. Ainda hoje as mulheres precisam enfrentar todo um sistema que foi construído para que ela ficasse em casa, sendo princesa e ajudante de seu “marido-dono”. Estavam reservadas para as mulheres as sobras de direitos, as migalhas de afetos, o resto de empregos e os centavos dos salários.
Com a luta travada por divinas-necessárias-mulheres, em que o papel de protagonistas de suas próprias vidas vem sendo resgatado, o rumo da história tende a ser outro. E isso desacomoda um sistema que não contava com as mulheres na estrutura de base para funcionar.
Toda a história da humanidade é perpassada pelo sofrimento de mulheres violadas em sua essência e dignidade. O marco do 8 de março, com os corpos incendiados de mulheres que lutavam por direitos trabalhistas, somente foi alcançado em 1975 e pavimentou o caminho para o surgimento de movimentos geradores de visibilidade da questão, que por sua vez foi semente para a criação da ABMCJ no Brasil.
A atuação vigilante e aguerrida de uma associação como a ABMCJ, de denotada importância, é necessária, considerando que a prescrição constitucional de que “todos são iguais perante a lei” não está dada, mas precisa ser conquistada todos os dias, principalmente em ambientes masculinos, assim como fizeram as que nos antecederam.
Foi nessa bruma que a ABMCJ capixaba foi instalada naquele início de primavera de 1989, presidida pela advogada Rafaela Damásio de Jesus, tendo na vice-presidência a inigualável Ivone Vilanova, e outras tantas mulheres que foram e são pilares de resistência, e nos ensinam que é preciso ter força, é preciso ter graça é preciso ter sonho sempre.
Hoje a ABMCJ/ES segue firme sendo trincheira de resistência sob o comando irretocável de Catharina Cecin Gazele, e ainda conta com tantas mulheres inspiradoras, entre as quais destaco, não por dever de ofício, mas pelo prazer do afeto e mística da admiração: Flávia Murad, Flávia Brandão e Elda Bussinguer.
Sigamos firmes, tendo certo que os direitos nunca são dados, mas conquistados.