O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou na semana passada, faltando um mês para o prazo final para a confecção de título eleitoral, o baixo registro de procura pelo público jovem. De acordo com o dado, que é histórico, a taxa é a menor em trinta anos. Revelou a Corte Eleitoral que apenas 10% dos menores de 18 anos estão aptos a votar e pouco menos de 1/4 do total que foi às urnas três décadas atrás.
Os jovens são considerados eleitores do futuro. As eleições consistem em um momento importante na construção de uma consciência participativa e democrática, por isso, essa baixa procura deve soar como sinal de alerta. Algum recado essa garotada está tentando passar para o Estado e a sociedade. É essencial que seja realizada a leitura desse sinal, que pode estar apontando para a necessidade de uma mudança de rota.
A inclusão no sistema político passa pelo sentimento de pertencimento no debate e construção de uma vida democrática participativa. Diferentemente de um sistema de troca de privilégios e obtenção de vantagens, um sistema político é responsável pela pavimentação de acesso a direitos e serviços públicos, e deve afastar-se, cada vez mais, de um estado de coisas que pode estar contribuindo para que essa juventude saia de cena.
Certa feita, um jovem de uma periferia, ao responder uma pesquisa científica acerca de inclusão digital e movimento político, ponderou: de que valia ter planos se o sistema tinha um plano diferente para ele? Continuou sentenciando: que não tinha direito a ter planos, que as coisas são determinadas para ele, que somente reagia a elas. E arrematava: não fazia planos, mas sobrevivia a eles.
A fala do jovem denuncia o desinteresse dessa miríade de tenra idade aos assuntos referentes à política, revelados pelo TSE, em um ano tão importante para o resgate da cidadania e do Estado democrático de direito.
Muitos jovens, principalmente os periféricos, têm em sua liturgia cotidiana a necessidade de sobrevivência, fazendo seus “corres” e torcendo para não serem eliminados pelo sistema na esquina seguinte. Roubados em seus sonhos, somente resta a eles resistir para conseguirem ficar vivos.
É importante resgatar o sentimento de pertença política participativa desse jovem que é imprescindível para reconstruir um sistema que se encontra desfigurado e não atende aos anseios e necessidades de uma juventude que não se reconhece dentro do contexto e estrutura política.
As iniciativas de formação política fora do circuito das velhas oligarquias e apartado da lógica da ocupação utilitária de espaços políticos são determinantes para a mudança de rumo do sistema político do país. A atuação para além do dia da votação requer o investimento em um processo continuado de resgate de valores democráticos que precisam ser atualizados. E conscientizar essa juventude que as decisões políticas influenciam diretamente a vida de todos, inclusive a deles, e por isso todos devem fazer parte.
Urge a construção de uma política que dialogue com as necessidades de uma rapaziada que, como bem disse Gonzaguinha, segue em frente, segura o rojão, não foge da fera, enfrenta o leão, não corre da raia, que não está na saudade e constrói a manhã desejada.