O autocuidado nos últimos anos tem recebido muito destaque na sociedade, talvez como forma de atenuar as consequências do mundo contemporâneo em que vivemos, que por sua característica de instantaneidade tem provocado adoecimento nas pessoas.
Consiste no processo de estabelecimento de comportamentos para garantir o bem-estar holístico de si mesmo. Embora tendo muito destaque na atualidade, essa prática data da Idade Antiga, sendo creditada a Sócrates a sua fundação, quando demonstrava o cuidado de si e dos entes queridos.
Incorporar ao cotidiano uma rotina de alimentação saudável, exercícios, sono, leitura e acompanhamento médico é uma ação que, embora não pareça, não depende somente do indivíduo, mas de todo o coletivo. O autocuidado não é apenas uma atividade individual, pois a comunidade em geral desempenha um papel importante no acesso, na implementação das suas atividades e condicionalidades para a sua realização.
Nos últimos tempos, ao passo que o termo tem se espraiado socialmente, paira uma cobrança absurda para que todas as pessoas sejam adeptas do autocuidado, como se fosse uma fórmula mágica para todos os males do mundo contemporâneo.
No entanto, justamente, por não depender somente do indivíduo, é preciso considerar que vários fatores compreendidos como subjetivos afetam essa prática, tais como: falta de motivação, crenças culturais, autoeficácia ou confiança, habilidades funcionais e cognitivas, apoio de outras pessoas e acesso ao cuidado, mas a bem da verdade, dependeriam o entorno. Além de considerar os fatores externos, como: condição social, a envolvente e proximidade de instalações de cuidados de saúde, que indicam que inserir práticas e rotinas de autocuidado não depende somente da pessoa individualmente.
Depositar somente no indivíduo a obrigação do cuidar de si é mais uma estratégia do sistema opressor que tenta transferir para o ser humano toda responsabilidade que em grande parte é do Estado e do sistema social, que infelizmente não coloca a pessoa humana na centralidade.
Um sistema que trata o ser humano como coisa produz uma miríade de pessoas doentes e depois cobra delas uma rotina obrigatória de autocuidado para o processo de cura e bem-estar. Tensionando a vida mais uma vez.
A famosa sentença que inicia com “você tem que...” é absurdamente violadora, e em muitos casos agudiza mais ainda a situação da pessoa que se encontra em estado grave de saúde corpórea ou mental. Cada pessoa tem seu limite e ritmo, sendo essa a matriz da diversidade que é uma característica central da humanidade.
Decidir pelo autocuidado e incorporá-lo à vida é algo que precisa vir ao encontro do que se acredita ser agregador da qualidade de vida, e não como uma pressão social, produto da expectativa do “outro” em relação ao “eu”.
A vida existe para ser vivida, e não prestada conta. E o processo do viver consiste em fases, etapas e momentos, que são diferentes. Alguns bons e outros nem tanto, mas todos compõem o que somos.
Embora muitos tentem imprimir, a “vida instagramável” não é absoluta. Por trás dela há perrengue, que não é suprimido com autocuidado, vez que não é mágica. O autocuidado nos ensina a lidar com nossas potências e compreender nossas impotências.