“Água que nasce na fonte serena do mundo / E que abre um profundo grotão / Água que faz inocente riacho e deságua / Na corrente do ribeirão (...) Terra / Planeta água / Terra / Planeta água / Terra / Planeta água” (“Planeta água”, Guilherme Arantes)
70%, essa é aproximadamente tanto a proporção de água no corpo humano quanto da cobertura de água no planeta Terra. Ocorre que no caso do nosso planeta, a maior parte dela encontra-se nos oceanos, ou seja, é salgada e, por isso, imprópria para o consumo humano, bem como para a agropecuária e atividades industriais.
É certo que a técnica de dessalinização da água já vem sendo usada em diversas partes do mundo. Contudo, como a ONU mesmo informa, “o processo consome muita energia e os combustíveis fósseis comumente usados contribuem para o aquecimento global, e a salmoura tóxica que produz polui os ecossistemas costeiros”.
O ideal, portanto, seria usarmos somente a água doce, mas que representa apenas 2,5% do total da água existente na Terra.
Se no início do ano vimos a tragédia provocada pelo excesso de água no Rio Grande do Sul, agora, ao contrário, a falta dela em boa parte do país é que tem provocado uma situação catastrófica, inclusive em função da enorme quantidade de queimadas, uma vez que a vegetação está bastante seca, facilitando a propagação do fogo.
No momento, muitas cidades brasileiras estão entrando em crise hídrica, pois já não chove há alguns meses nas regiões em que elas estão localizadas e/ou nas cabeceiras dos rios que as abastecem. Trata-se de uma situação preocupante, afinal precisamos de água para beber, cozinhar, lavar...
E a situação pode piorar ainda mais. Segundo dados do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o Brasil possui Áreas Susceptíveis à Desertificação (ASD’s) que “compreendem, atualmente, cerca de 1.340.863 km2, abrangendo 1.488 municípios do Nordeste, além de alguns territórios de Minas Gerais e (inclusive) Espírito Santo”.
Mas também é preciso apontar que parte do problema brasileiro da falta d´água se deve ao enorme desperdício, estimado em quase 38%, bem acima da média dos países desenvolvidos, que é de 15%. Uma portaria do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) estabelece a meta de 25% como o máximo aceitável, muito distante, portanto, dos indicadores atuais.
As razões do desperdício são várias, entre elas estão os vazamentos, mas também os “gatos”, isto é, ligações clandestinas nas redes de abastecimento. Se tal tipo de infração traz prejuízo para toda a comunidade, não menos importante são as nossas ações cotidianas, afinal ainda não temos uma cultura preocupada com o uso racional da água.
Gastamos muita água na hora do banho e ao escovar os dentes, quando lavamos a louça, limpamos o chão. E o que dizer da quase tradicional lavagem de carro nos finais de semana? Por outro lado, as regiões que vêm sofrendo com a fuligem das queimadas precisam de água para limpar objetos, casas e ruas e, principalmente, para apagar os incêndios.
Já as caixas d’água de reúso para o reaproveitamento das águas pluviais, ou mesmo as que são geradas pelo sistema de condensação dos aparelhos de ar condicionado, e os chamados piscinões urbanos, ainda são estratégias incipientes na maioria das nossas construções e cidades.
O mais grave, porém, é o modo como estamos tratando nossos rios, lagos, igarapés, etc., desmatando suas matas ciliares, jogando lixo, esgoto e assim por diante. Não é incomum que o trecho urbano (e poluído) dos rios de algumas cidades brasileiras tenha sido tapado, ao invés de tratarem o esgoto que era lançado em suas águas e instalarem um parque alagável em suas margens.
Esse tipo de parque, como o nome já diz, alaga-se durante o período de chuvas, permitindo o lento escoamento das águas pluviais, reduzindo o risco de inundações das áreas urbanizadas, e torna-se um espaço de lazer durante a estiagem.
As mudanças climáticas já são uma realidade. A seca atual pode se repetir nos próximos anos, ao mesmo tempo que chuvas torrenciais podem cair sobre locais onde a média pluviométrica era bem menor no passado. A tecnologia será um aliado importante para lidarmos com as alterações do clima, mas nada é mais relevante do que a mudança de atitude em relação ao nosso padrão de comportamento e consumo.