Minha esposa, uma médica formada há vários anos, sempre comentou que quando ela era recém-graduada e trabalhava em plantão hospitalar, os pacientes que chegavam em situação mais grave normalmente eram os motociclistas. Daí o veemente medo dela de que qualquer pessoa da nossa família tenha e/ou ande de moto.
De fato, as motos são responsáveis pela maior quantidade de acidentes de trânsito no Brasil. Contudo, mais do que o alto número de sinistros, o que mais preocupa é mesmo a gravidade das vítimas desses acidentes, muitos deles resultando em óbitos.
Dias atrás o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, externou sua preocupação com “a carnificina” que o serviço de mototáxi pode provocar na cidade. Na verdade, a capital paulistana já tinha publicado um decreto proibindo tal atividade em seu território, buscando precaver-se de todos os malefícios causados pelos acidentes de trânsito envolvendo motocicletas.
Ora, quem circula pelas cidades já está mesmo acostumado a ver motoqueiros deitados nas ruas e avenidas após alguma colisão, aguardando a chegada da equipe do Samu. Mas também já estamos habituados com a grande quantidade de imprudências e infrações cometidas por motociclistas (avanços de sinal, conversões proibidas, alta velocidade e, inclusive, falando ao celular enquanto conduzem suas motocicletas).
Tampouco é raro ver aqueles que empinam suas motos em plenas vias urbanas como se elas estivessem totalmente vazias de pessoas e de outros veículos ou como se eles fossem acrobatas num circo.
A questão é mesmo preocupante, pois as vendas de motos não param de crescer. Se em 2023 foram mais de um milhão e meio de motos emplacadas, é provável que em 2024 esse número tenha subido significativamente, pois o primeiro trimestre do ano passado já mostrou um aumento de 21% em relação ao mesmo período do ano anterior. E pode-se supor que em 2025 a situação se mantenha igual.
Outro problema que também merece ser observado é que as motos são mais poluentes que os automóveis. É certo que, graças ao Promot (Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares), os novos modelos já possuem tecnologia visando a diminuição progressiva da emissão de gases poluentes. Mas ainda tem muita motocicleta velha andando por aí, apesar do grande número de emplacamentos de motos novas.
Mas seja ela velha ou nova, os acidentes continuam acontecendo. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em 2024, mais de 1,2 milhão de pessoas foram hospitalizadas em 2023 por causa de acidentes com motos no Brasil. E a média de óbitos corresponde a 33 pessoas por dia.
O baixo custo da moto (tanto para comprar como para manter, incluindo o gasto com combustível) e sua agilidade no trânsito (que faz com que ela não fique presa nos engarrafamentos) são as principais razões para o grande número desses veículos circulando pelas cidades e rodovias brasileiras, independentemente da alta quantidade de acidentes que parecem não assustar os motociclistas.
Aqueles que trabalham com serviço de entregas por aplicativo aparentemente são os mais apressados, pois costumam conduzir suas motocicletas de modo bastante imprudente, passando pelo corredor entre os automóveis e ônibus em alta velocidade e com manobras arriscadas, como se não tivessem nenhum medo de sofrer algum acidente.
O uso de capacetes e as campanhas educativas não têm se mostrado suficientes para reduzir a enorme quantidade de sinistros envolvendo motociclistas. Tampouco se vê uma efetiva fiscalização de agentes de trânsito para coibir as infrações que não sejam as relacionadas ao uso de bebida alcóolica e licenciamento vencido.
Ou seja, tudo indica que as coisas ficarão do mesmo jeito e, portanto, o trânsito brasileiro continuará na triste estatística de um dos mais violentos do mundo.