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Tarcísio Bahia

Água e chuva: entre a escassez e os extremos climáticos

Cada vez mais nos vemos atingidos pelas mudanças do regime climático, seja por longos períodos de estiagem, seja por tempestades que chegam com ventos fortes e enchentes de rios

Publicado em 05 de Novembro de 2026 às 03:00

Públicado em 

05 nov 2026 às 03:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia Tarcísio Bahia

“Traga-me um copo d'água, tenho sede / E essa sede pode me matar / Minha garganta pede um pouco d'água / E os meus olhos pedem teu olhar


A planta pede chuva quando quer brotar / O céu logo escurece quando vai chover / Meu coração só pede o teu amor / Se não me deres posso até morrer” (“Tenho sede”, Dominguinhos e Anastácia)


Se no artigo do mês passado o tema era o tratamento do esgoto doméstico visando o reuso da água, devolvendo-a à natureza, agora trataremos de outra questão relacionada à água, um bem precioso, indispensável à vida, e que tem sido muitas vezes negligenciada.


O percentual de água no corpo humano varia entre 60% e 70%, muito parecido com o percentual de água na superfície do nosso planeta, que é calculado em 70%. Contudo, da totalidade de água na Terra, apenas 2,5% é doce. Ou seja, a maior parte dela, que é salgada, é imprópria ao consumo humano.


Mas não é porque há excesso de água salgada no planeta que devemos descuidar dela, afinal ela tem um papel fundamental no equilíbrio da biosfera, sendo inclusive habitat de diversas formas de vida, muitas delas consumidas pelo próprio homem.

Rachaduras bno solo após período de estiagem Crédito: Rubens Cardia/Folhapress

Quem é que não gosta de um camarão frito? E o que dizer da famosa moqueca, herança indígena, feita na panela de barro? E não faltam opções, que vão desde o caro e saboroso salmão à tradicional sardinha ou o popular peroá. Mas ainda é preciso mencionar as algas marinhas, que não apenas são comestíveis, como também são matéria prima para medicamentos e produtos cosméticos.


No caso da água doce, é a chuva que nos traz a água que precisamos para viver. E ela é coletada nos mananciais, como são os rios que cortam o território onde vivemos.


Ao longo do tempo, a civilização humana aprendeu como viver em função do regime das chuvas em cada região do planeta. Em alguns locais a chuva concentra-se numa parte do ano, em outros ela é quase constante, enquanto que há ainda locais em que quase não existe precipitação pluviométrica.

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Na região Sudeste brasileira, por exemplo, as chuvas são mais intensas na primavera e verão, situação até mencionada por Tom Jobim no verso “são as águas de março fechando o verão”.


O problema é que os registros históricos parecem que já não fazem muito sentido nos dias atuais. Vejam o caso do deserto do Atacama no Chile, o lugar mais seco da Terra, mas que neste ano teve chuvas intensas, o que fez brotar um manto de flores surpreendente e encantador.


De volta ao Brasil, a histórica enchente no Rio Grande do Sul dois anos atrás se deu numa época na qual não era esperado um índice pluviométrico tão intenso.


Muitos desses eventos climáticos inesperados são justificados pelos fenômenos El Niño e La Niña que ocorrem no Oceano Pacífico. Mas também é certo que o aquecimento global, provocado pela emissão de CO2, tem enorme parcela de culpa nas mudanças climáticas, tal como afirmado pelos cientistas, ao contrário de muitos políticos que negam o problema, preferindo fingir que não o veem.

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O fato é que cada vez mais nos vemos atingidos pelas mudanças do regime climático, seja por longos períodos de estiagem, seja por tempestades que chegam com ventos fortes e enchentes de rios, seguidos de destruição de tudo que é atingido por elas.   


Num momento há falta d’água, deixando-nos com sede, pastos secos, perdas agrícolas, aumento no preço dos alimentos, e nem pensar em lavar a louça e a roupa suja. No instante seguinte, a água barrenta e a lama deixam um rastro de devastação e sujeira, que já não vale a pena limpar nada, apenas jogar as coisas fora. E aí, tomar coragem pra recomeçar e refazer tudo de novo.


Ora é água demais, ora de menos... Enfim, ainda não estamos devidamente preparados para lidar com nenhuma das duas situações. Invadimos as margens dos rios, destruímos as matas ciliares, de modo que quando a chuva vem intensa, o leito se mostra estreito e a água precisa invadir o espaço no qual ela corria livremente tempos atrás.


Por outro lado, não sabemos armazenar suficientemente a água que chega em excesso, para podermos usá-la quando a chuva escasseia. E, por fim, tampouco temos uma cultura do uso consciente da água, de modo a não desperdiçá-la desnecessariamente.

Tarcísio Bahia

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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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