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Vantagens competitivas

Como usar produção de commodities do Brasil em uma economia mais complexa e inovadora?

O debate sobre a relação entre a produção e exportação de commodities e o desenvolvimento econômico é central para a economia brasileira

Publicado em 27 de Setembro de 2025 às 03:00

Públicado em 

27 set 2025 às 03:00
Sávio Bertochi Caçador

Colunista

Sávio Bertochi Caçador

O Brasil, como um gigante agropecuário e mineral, enfrenta um desafio estrutural para seu desenvolvimento econômico: como usar sua vasta produção de commodities para construir uma economia mais complexa e inovadora? O debate sobre a relação entre a produção e exportação de commodities e o desenvolvimento econômico é central para a economia brasileira.
Este texto busca demonstrar como o Brasil pode transcender a mera exploração de recursos naturais para construir vantagens competitivas dinâmicas e se tornar uma economia que aprende.

O papel das commodities no desenvolvimento econômico

Commodities são produtos básicos, geralmente de origem primária, que possuem pouca ou nenhuma diferenciação entre produtores e são negociados em mercados globais. O valor de sua produção é determinado, principalmente, pela abundância de recursos naturais e por economias de escala, em vez da diferenciação do produto.
A produção de commodities gera grandes rendas econômicas e resulta em um considerável ingresso de moeda estrangeira no país, o que pode levar à apreciação da moeda e a um fenômeno conhecido como "doença holandesa", em que o setor de commodities atrai capital e mão de obra, elevando a taxa de câmbio e tornando os demais setores menos competitivos no mercado internacional. A riqueza dos recursos, em vez de ser uma bênção, pode se tornar um obstáculo para o desenvolvimento.

Vantagens estáticas vs. vantagens dinâmicas

A dependência de commodities está intimamente ligada à ideia de vantagens competitivas estáticas, que são aquelas baseadas na dotação de fatores naturais, como a riqueza em minérios ou terras férteis. Elas são "estáticas" porque dependem de algo que já existe e não se altera significativamente. O perigo de focar apenas nelas é que o desenvolvimento econômico fica refém das flutuações de preços globais, que são temporárias e cíclicas.
Agronegócio será um dos grandes responsáveis pela geração de riquezas no Espírito Santo em 2023
Agronegócio  Crédito: Shutterstock
Em contrapartida, as vantagens competitivas dinâmicas são construídas por meio do aprendizado, do investimento em ciência e tecnologia, e da agregação de valor ao longo da cadeia produtiva. Diferentemente das vantagens estáticas, que podem ser imitadas por outros países com dotação natural semelhante, as vantagens dinâmicas são únicas e difíceis de replicar, pois resultam do acúmulo de conhecimento, da inovação e da ação estratégica.

A dependência de commodities do Brasil

A pauta de exportações brasileira de 2023 e 2024 revela a forte dependência do país em relação às commodities. Em 2023, os três principais produtos exportados foram a soja, os óleos brutos de petróleo e o minério de ferro. Essa concentração se manteve em 2024, quando, em alguns períodos, o petróleo bruto chegou a superar a soja como principal produto de exportação.
A indústria extrativa e a agropecuária somaram 45,2% das exportações do país, enquanto os três principais produtos (soja, minério de ferro e petróleo bruto) representaram 35,4% do total exportado em fevereiro de 2024. Embora a indústria de transformação tenha uma certa participação, a pauta de exportação brasileira é fortemente influenciada por produtos básicos e semielaborados.

Políticas públicas para a construção de vantagens dinâmicas

Para superar a dependência das commodities, o Brasil poderia utilizar a renda gerada por elas para financiar uma transição estrutural, construindo vantagens competitivas dinâmicas. Algumas medidas de políticas públicas poderiam incluir:
  1. Fundos de riqueza soberana: criar fundos com a renda extraordinária das commodities para investir em educação, ciência e tecnologia, infraestrutura e inovação. Esses fundos atuariam como um "escudo" contra a volatilidade dos preços internacionais e financiariam o desenvolvimento de setores estratégicos;
  2. Incentivos fiscais e creditícios: direcionar incentivos para setores de alta tecnologia e que agreguem valor às commodities. Por exemplo, em vez de exportar apenas celulose, o Brasil poderia incentivar a indústria de papel e embalagens especiais. No caso do minério de ferro, o foco poderia ser a produção de aço de alta qualidade e bens de capital;
  3. Investimento em capital humano: aumentar a qualidade da educação técnica e superior e incentivar a formação de pesquisadores e engenheiros, criando um ambiente propício para a inovação e o desenvolvimento de novas indústrias.

O Brasil como uma economia que aprende

O Brasil é uma "economia que não aprende", pois, historicamente, falhou em diversificar sua produção para bens mais complexos e sofisticados (vide o livro “Brasil, uma economia que não aprende”, de Paulo Gala e André Roncaglia). Uma "economia que aprende" é aquela capaz de acumular conhecimento, gerar inovação e, assim, aumentar sua capacidade de produção de bens mais complexos.
O Brasil tem a chance de reverter esse quadro. Ao contrário de uma economia que simplesmente extrai recursos e os exporta, o país pode se tornar uma economia que aprende ao usar a produção de commodities como uma alavanca. Isso significa:
  • Aproveitar a cadeia produtiva das commodities para desenvolver tecnologias e serviços especializados, como logística, biotecnologia agrícola, tecnologia para mineração e produção de equipamentos;
  • Promover a integração entre os setores de commodities e a indústria de transformação, criando sinergias e estimulando a inovação;
  • Fomentar a pesquisa em áreas como a produção de fertilizantes e defensivos agrícolas de alta tecnologia, reduzindo a dependência de importações e agregando valor ao agronegócio.
Em suma, o Brasil não precisa deixar de ser um produtor de commodities. O desafio é usar a renda e o conhecimento gerados por essa atividade para se tornar uma economia mais diversificada, complexa e resiliente, que não apenas explora sua riqueza natural, mas também constrói sua capacidade de inovar e aprender.

Sávio Bertochi Caçador

E economista, doutor em Economia pela Ufes, professor e consultor

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