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Economia

Paraíso dos ricos e do capital, inferno dos trabalhadores?

O Brasil é o segundo país no ranking do relatório com o maior volume previsto de heranças, com projeção de quase US$ 9 trilhões nas próximas décadas

Publicado em 07 de Julho de 2025 às 03:00

Públicado em 

07 jul 2025 às 03:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros Rodrigo Medeiros
No dia 18 de junho, a partir da matéria publicada no portal G1, assinada por Júlia Nunes, tomei conhecimento de que o Relatório Global de Riqueza 2025, divulgado pelo banco suíço UBS, analisou 56 países que representam mais de 92% da riqueza mundial. Farei alguns comentários sobre o assunto.
Creio ser interessante citar novamente o livro ‘Natureza, cultura e desigualdades’ (2024), de Thomas Piketty, editado pela Civilização Brasileira. De acordo com o economista francês, para a América Latina, “de modo geral, a presença da herança colonial é muito constante na estrutura das desigualdades”.
O ministro Fernando Haddad, da Fazenda, afirmou publicamente que o Brasil tem uma “caixa-preta” de R$ 800 bilhões em renúncias fiscais. Um país nunca é igualitário ou desigualitário por natureza. O Brasil vai pagar quase R$ 1 trilhão com juros da dívida em 2025. Segundo Piketty, “tudo depende de quem controla o Estado e com qual objetivo”. A trajetória histórica importa.
Em 2019 eram 24 milhões na pobreza extrema. Agora são 35 milhões, segundo a FGV
Pobreza extrema Crédito: Shutterstock
Entre 1900 e 2020, conforme consta na World Inequality Database, a estrutura da concentração de renda no Brasil pouco se alterou. Tal fato explica, em parte, os insucessos das políticas de desenvolvimento econômico, inclusive a partir do processo de substituição de importações, que foi inicialmente uma reação aos contextos da crise de 1929 e da Segunda Guerra Mundial.
De acordo com Nunes, “ter um grande número de milionários não significa, necessariamente, que a população de um país seja rica”. Conhecemos bem como a riqueza de alguns poucos pode ser construída a partir da desgraça de muitos. Nesse sentido, o reformismo brasileiro se assemelha à fórmula clássica de Lampedusa: mudar para manter as coisas como estão.
Quando os muito ricos e o capital correm o risco de serem politicamente confrontados em seus privilégios, a crise se instala na República. Conforme revelou Nunes, “o Brasil também aparece no relatório com o maior índice de desigualdade de riqueza entre todos os países pesquisados”.
O Brasil é o segundo país no ranking do relatório com o maior volume previsto de heranças, com projeção de quase US$ 9 trilhões nas próximas décadas. De acordo com os números, o Brasil está longe das primeiras posições quando o critério é a riqueza média por adulto, que considera o patrimônio total do país dividido pelo número de adultos.
Entre nós, no Brasil, o valor é de aproximadamente US$ 31 mil, abaixo da média da América Latina (US$ 34,7 mil) e distante dos países desenvolvidos, como são os casos da Suíça (US$ 687 mil) e dos Estados Unidos (US$ 620 mil). O Índice de Gini, que mede desigualdade, foi de 0,82 no Brasil em 2024.
Segundo o Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, o salário médio formal de admissão foi de R$ 2.248,7 em maio de 2025. No Espírito Santo, o salário médio de admissão foi de R$ 2.093,84, menor do que a média do Sudeste. A informalidade laboral foi de 37,8% e, de acordo com o IBGE, a taxa composta de subutilização esteve em 14,9% para o trimestre encerrado em maio, enquanto o rendimento médio mensal real habitual chegou a R$ 3.457.
Como reação à Constituição de 1988, analisou Christian Lynch, em artigo de opinião no Meio Político, de 25 de junho de 2025, o reacionarismo de partes das classes médias e das elites econômicas emergiu. O fracasso da ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023 promoveu o enfraquecimento desse movimento. Para o cientista político, o seu “enfraquecimento não resulta apenas da repressão institucional que se seguiu à tentativa de golpe, mas sobretudo do sucesso da direita convencional”.
De acordo com o jornalista André Barrocal, na edição de número 1.368 da CartaCapital, de 2 de julho de 2025, o “novo Plano Safra terá um volume recorde de dinheiro, segundo um integrante da equipe econômica, como ocorreu nos anos anteriores - R$ 435 bilhões  em 2023 e R$ 476 bilhões em 2024”. Chegou-se a falar em R$ 500 bilhões. O agronegócio pede R$ 600 bilhões, em um contexto de isenções fiscais bilionárias para o campo.
O Brasil tem o segundo Congresso mais caro do mundo, atrás dos EUA. A maior parte do orçamento paga salários e benefícios do Legislativo. Conforme foi divulgado na edição digital do Estadão, de 27 de março de 2022, a despesa com parlamentares ultrapassa US$ 5 milhões ao ano. Sob qual perspectiva esses políticos desejam reformar o Estado brasileiro? Paraíso dos ricos e do capital, inferno dos trabalhadores?

Rodrigo Medeiros

Rodrigo Medeiros Rodrigo Medeiros

É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade

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