No livro ‘Depois do futuro’, editado pela Ubu, em 2019, Franco Berardi trouxe importantes reflexões para o nosso presente em seu prefácio. A primeira edição do livro foi publicada em 2009, aniversário de cem anos do Manifesto Futurista. Em síntese, a intenção foi “comparar o zeitgeist depressivo deste novo século ao espírito futurista que permeou profundamente a cultura do século XX, marcado pela crença no futuro”.
A crença na realização final da razão marcou parte do século passado, tomando formas variadas de justiça social, afirmação nacional, democracia liberal, inovação tecnológica. Segundo Berardi, “o horizonte parecia brilhante, mesmo que o caminho até o futuro fosse pavimentado com sofrimento, miséria, dificuldades e luto inimagináveis”.
No século XX, a expectativa média de vida aumentou e a tecnologia abriu um horizonte novo de possibilidades. Entretanto, de acordo com Berardi, “algo se quebrou na esfera psicossocial”. O sentimento que prevalece é de melancolia. Para o filósofo, o “Iluminismo obscuro é a expressão que melhor sintetiza a percepção atual do futuro como algo que ameaça o programa humanista”.
O futuro já não é mais percebido como fonte de esperança. Trata-se de um futuro amedrontador e de precarização das vidas humanas. Movimentos neorreacionários emergiram em diversas partes do mundo. Berardi fez um questionamento instigante: “Seria a legitimação eleitoral de forças da extrema direita o prenúncio de um triunfo final da brutalidade fascista?”
Recomendo a leitura do livro para os interessados. Conforme ponderou o filósofo, “a onda reacionária se parece com a expressão de um desespero senescente, uma vingança furiosa, mas impotente, não só contra a razão financeira que provocou um empobrecimento social, mas também contra a humilhação política e sexual que esse declínio trouxe à tona”.
Berardi é enfático ao afirmar que há pessoas que “cresceram na era do individualismo desenfreado, confiaram nas promessas do egoísmo neoliberal e se descobriram perdedoras”. O filósofo completou dizendo que as “expectativas frustradas, somadas ao individualismo frustrado, não levaram ao ressurgimento da solidariedade, mas só a uma ânsia desesperada e ao desejo enfurecido de aniquilação”.
Em artigo de opinião publicado com o professor Luiz Henrique Faria no jornal digital GGN, em 11 de dezembro, mostramos como o Novo Ensino Médio (NEM) integra esse processo de cancelamento do futuro no Brasil. Afinal, em vez de ser um mecanismo de transformação progressiva, o ambiente escolar deve ser instrumentalizado como ferramenta de manutenção e naturalização da ordem social estruturalmente desigual e injusta?
De acordo com o IBGE, a taxa de informalidade laboral tem se mantido no patamar de 39%. A taxa de desocupação no trimestre encerrado em outubro de 2024 foi reduzida para 6,2%, com o rendimento real habitual praticamente estagnado em dez anos. A taxa composta de subutilização da força de trabalho foi de 15,4% no respectivo período. O mercado laboral estruturalmente precário e as suas acomodações institucionais integram o nosso distópico contexto de cancelamento do futuro.