No seu boletim sobre emprego, edição de número 22, de maio de 2022, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelou que “a recuperação da ocupação, após os impactos iniciais da pandemia, ocorreu sobretudo por meio do trabalho por conta própria”. A renda dos trabalhadores por conta própria que começaram a trabalhar durante a pandemia equivalia a 69% do recebido por aqueles que começaram antes.
De acordo com o Dieese, 75% dos trabalhadores que passaram a trabalhar por conta própria mais recentemente estiveram na informalidade e, portanto, não contribuíram com a previdência social. Mulheres negras e homens negros possuíam os menores rendimentos no grupo dos trabalhadores por conta própria, antes e durante a pandemia.
Trabalhadores por conta própria mais recentes estavam em atividades de menor qualificação, quando comparados aos mais antigos. Segundo o Dieese, “de 501 mil condutores de motocicletas, cerca de 40% estavam há menos de dois anos trabalhando como conta própria”. A pandemia, que ainda não terminou, não foi vivida da mesma maneira por todos os trabalhadores brasileiros, em um contexto no qual um em cada três brasileiros não teve dinheiro para alimentar a família.
Em síntese, o Dieese afirmou que “a recuperação da ocupação via trabalho por conta própria, portanto, tem se apresentado como alternativa precária aos trabalhadores”. Desde as promessas da reforma trabalhista de 2017, o mercado de trabalho brasileiro tem se mostrado distópico. Afinal, há a assimetria clássica nas negociações entre empregador e contratado. O empregador pode escolher quem contratar, estabelecendo condições favoráveis de contratação, e o trabalhador precisa do salário para sustentar a si ou sua família.
Segundo o IBGE, a taxa de informalidade foi de 40,1% da população ocupada no trimestre terminado em março de 2022, sendo que a informalidade atingiu 39,1% no mesmo trimestre de 2021. O rendimento real médio do trabalho não tem dado conta do processo inflacionário no Brasil e tal fato explica, em boa medida, o baixo desempenho esperado da economia para 2022, pois o consumo é um importante motor da atividade econômica doméstica.
DESINDUSTRIALIZAÇÃO
O processo de desenvolvimento requer que os países evoluam na complexificação produtiva, ou seja, subam a escada da sofisticação tecnológica na produção de bens e serviços. Não é isso que vem ocorrendo no Brasil, que passou por um processo de desindustrialização precoce desde meados dos anos 1980. Ocorreram perdas de produtividades na economia quando o setor terciário de baixa sofisticação precisou acomodar a maior parte dos trabalhadores, formais ou informais.
Em artigo de opinião publicado no site ‘A Terra é redonda’, no dia 12 de maio, o professor Eleutério Prado, da Universidade de São Paulo (USP), abordou a “estagflação que aparece agora como um fenômeno renitente e duradouro da produção capitalista”. Destacaram-se a perspectiva da desglobalização e como esse fenômeno afetará as inflações domésticas nos países a partir do encurtamento das cadeias de suprimentos por motivos geopolíticos.
O professor utilizou como exemplo histórico o período entre 1914 e 1945, quando a “desglobalização ocorrida no século XX adveio, como bem se sabe, do acirramento do conflito entre as potências imperialistas”. Prado indicou “que o ano de 2008 marca o início de um processo de desglobalização que se estenderá pelos próximos anos”. Artigo disponibilizado publicamente pela consultoria McKinsey, no dia 9 de maio, escrito por Olivia White e outros, sobre a guerra na Ucrânia, também apontou nesse sentido.
VULNERÁVEIS SOFRERÃO MAIS
White e outros citaram disrupções capazes de mudar o mundo. Segundo os autores, “a guerra fez os preços subirem para os bens de consumo essenciais”. Como consequência trágica, os vulneráveis sofrerão mais e a insegurança alimentar crescerá não somente na Europa. Como síntese, afirmam os autores, preços mais altos de alimentos e energia podem empurrar os mais pobres para “compensações impossíveis”.
Um cenário no qual o índice de preços de alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, em inglês) possa subir até 45% em 2022 se tornou algo possível. Os governos precisarão agir para garantir o abastecimento doméstico de alimentos a preços módicos e a tranquilidade social. O repatriamento de atividades produtivas (onshoring) retornou ao debate nos países desenvolvidos, sendo que a secretária do Tesouro norte-americano, Janet Yellen, mencionou inclusive o conceito de “friendshoring”.
A desglobalização já é tratada com seriedade nas instituições multilaterais, conforme podemos verificar lendo o artigo de Pierre-Olivier Gourinchas, diretor de Pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI), publicado no blog da instituição, no dia 19 de abril. A invasão da Ucrânia pela Rússia aumentou o risco de uma fragmentação permanente da economia global em blocos geopolíticos com padrões tecnológicos distintos.
Por que o Brasil tem que renunciar a uma política de segurança alimentar a partir da constituição e da manutenção de estoques públicos reguladores de alimentos? Essa orientação estratégica de construção de capacidades e competências produtivas também deveria se manifestar nos campos energético e da produção de fármacos? Quais articulações científicas e tecnológicas poderíamos construir no território brasileiro para gerar empregos, rendas e riquezas, além de necessárias reservas estratégicas?
A partir do trabalho da imprensa brasileira tomamos conhecimento de que a grande preocupação para o curto prazo é se teremos ou não golpe e ruptura institucional. Também somos informados sobre o “orçamento secreto” operado no Congresso e sobre o escândalo de corrupção envolvendo a compra de tratores com recursos federais que deveriam ser direcionados para o auxílio a famílias pobres. O debate público brasileiro precisa ir além de questões associadas ao velho clientelismo político e ao reformismo regressivo.