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Economia

A crise no varejo e a crise brasileira

A crise no varejo é mundial. No entanto, em cada país ela apresenta as suas particularidades

Publicado em 29 de Maio de 2023 às 00:10

Públicado em 

29 mai 2023 às 00:10
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

Fachada de Lojas Americanas no Centro de Vitória
Fachada de Lojas Americanas no Centro de Vitória Crédito: Fernando Madeira
No podcast “O Assunto”, do portal de notícias G1, do dia 19 de maio, a jornalista Natuza Nery trouxe elementos analíticos que nos ajudam a compreender o tamanho da crise no varejo brasileiro. Para tanto, ela entrevistou Guilherme Mercês, que é o diretor de economia e inovação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Problemas e fraudes contábeis ocorreram recentemente no varejo e esses fatos foram noticiados na imprensa.
Mercês, por sua vez, retratou a crise a partir de efeitos globais causados pela pandemia de Covid-19 e pela guerra na Ucrânia, além de ter destacado aspectos operacionais de transformação tecnológica nos negócios. "Na saída da pandemia, quando todo mundo achou que a gente ia viver um novo momento econômico, veio logo uma guerra e, também com ela, um forte aumento dos insumos, da inflação e da taxa de juros", ponderou.
A transformação digital impactou no varejo, segundo Mercês, e há “uma lista que não para de crescer de grandes redes varejistas anunciando o fechamento de lojas e escancarando, assim, uma crise no setor que emprega mais de oito milhões de pessoas”. A transformação tecnológica mudou a forma como as pessoas consomem.
De acordo com Guilherme Mercês, “o consumidor hoje experimenta na loja, mas termina sua compra no site, ou começa no site, passa na loja, e termina no site de novo”. As grandes empresas de tecnologia também estão demitindo pesadamente. “Hoje, a gente está discutindo o mundo que é um mix entre o digital e o físico, que é o que a gente está chamando de phygital”, avaliou.
A crise no varejo é mundial. No entanto, em cada país ela apresenta as suas particularidades. Em artigo anterior, chamei a atenção para o fato de que a economia brasileira estava se recuperando lentamente em 2021, a partir da reabertura de atividades, quando o Banco Central (BC) iniciou uma série de elevações da taxa básica de juros. Destaquei, citando fonte, que temos a maior taxa de juros reais do mundo.
O G1, em matéria publicada no dia 3 de maio, mostrou que “a taxa básica de juros brasileira (Selic) não sobe desde junho de 2022, mas o país continua no topo do ranking global de juros reais”. Os efeitos dessa política monetária ultraortodoxa, concentradora de riquezas no topo, se fazem sentir em termos dos desempenhos da economia e do mercado de trabalho. A crise no varejo é parte da crise nacional.
Não convém esquecermos que a insegurança alimentar avançou para mais da metade da população brasileira e a fome atingiu 33 milhões de pessoas em 2022, com informalidade laboral próxima de 40%, mesmo após a reforma trabalhista de 2017. O quadro distópico de intensificação, “flexibilização” e precarização laboral revela-se perene na composição da nossa trágica normalidade.
Em “As ideias conservadoras”, livro editado pela Três Estrelas, em 2014, o cientista político João Pereira Coutinho mostrou que até governos conservadores, como foi o caso de Margaret Thatcher (1979-1990), no Reino Unido, por exemplo, não desprezam a necessidade de o Estado assumir encargos de assistência aos menos favorecidos. Conservadorismo é diferente de reacionarismo.
Thatcher chegou a dizer que “o governo também tem o claro dever de ajudar a cuidar dos doentes e dos velhos, e de providenciar uma rede de proteção para todos aqueles que, sem culpa, caem no desemprego, na pobreza e na privação”. O seu governo não gastou anualmente menos do que 39% do PIB. Ela não criou uma regra rígida de teto de gastos que buscasse reduzir o Estado a patamares desejados pelos conservadores e neoliberais brasileiros.
De acordo com Juremir Machado da Silva, no livro “Raízes do conservadorismo brasileiro”, editado pela Civilização Brasileira, em 2018, a escravidão marcou perversamente a cultura nacional. Segundo Silva, “desde o primeiro dia do fim da escravidão, o negro liberto seria visto como vagabundo e bêbado em potencial”. Em síntese, “a acumulação primitiva do capital no Brasil ostentava um superávit de cadáveres jamais visto em outro lugar”.
Para Silva, o sofismo dos escravagistas está nas raízes da cultura brasileira, “sempre em nome da legalidade, da ordem, da produção, da produtividade, das famílias, das fortunas adquiridas dentro da lei, do respeito à propriedade, das instituições e do bem comum”. Em edição de 23 de abril de 2016, a publicação britânica The Economist afirmou que as raízes da disfunção política brasileira podem ser encontradas na economia baseada no trabalho escravo do século XIX, na última ditadura ocorrida no século XX e em um sistema eleitoral viciado em campanhas ruinosamente caras e que protegem os políticos da prestação de contas.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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