Infelizmente, todos nós já fomos ou conhecemos vítimas de crimes - seja contra o patrimônio, seja contra a vida. Afinal, a segurança pública é um problema estrutural do Brasil. Na década de 1990, o Espírito Santo foi um dos estados mais violentos do país. O crime organizado estava não só nas ruas, como infiltrado na política e no governo. O estado era comparado à Colômbia, naquele tempo um país perigosíssimo. A situação melhorou bastante de lá para cá, mas a edição mais recente do
Atlas da Violência, elaborado pelo Ipea, mostra que há muito o que evoluir.
Entre 2012 e 2022, o número de homicídios no Espírito Santo caiu 31%, um dos melhores resultados entre os 26 estados e o Distrito Federal. Entre 2017 e 2022, a queda foi de 24%. Apesar da melhora, o Espírito Santo ainda é o estado da região Sudeste com a mais alta taxa de homicídios - 32,6 casos para cada grupo de 100 mil habitantes. Para se ter uma ideia de quanto essa estatística é negativa, no estado de São Paulo o índice é de 12 casos para cada grupo de 100 mil habitantes; em países europeus, como a França, é de 1,2 caso por 100 mil habitantes.
O Espírito Santo tem ainda uma das mais altas taxas de feminicídio, um crime bárbaro.
Duas facções criminosas locais dominam a cena. Facções são um fenômeno nacional. Além de crimes como roubo e furto, que atingem a todos nós, as disputas entre essas organizações por território e pelo mercado das drogas impulsionam os homicídios.
Viver num país violento é uma tragédia para todos. A maioria das pessoas mortas em disputas do crime são jovens, que poderiam vir a ter uma profissão, produzir e ascender na vida. É uma perda dolorosa e irreparável para suas famílias e, também, uma perda enorme para o futuro país. A maioria desses jovens poderia se transformar em adultos que iriam para o mercado de trabalho, poderiam empreender, inovar, gerar empregos e renda. A violência é um dos fatores que explicam a baixa produtividade da economia brasileira.
A insegurança pública prejudica demais o ambiente de negócios. Alocar recursos em uma região é assumir riscos, portanto quem vai investir analisa tudo minuciosamente. Entre os riscos estão questões tributárias, a logística e a qualidade da mão-de-obra e, cada vez mais, a segurança do lugar onde ficará o empreendimento.
A Light, distribuidora de luz no Rio, tem um alto índice de perda de energia por ligações clandestinas. Seus funcionários não podem entrar em determinadas áreas para interromper o fornecimento dos fraudadores porque elas são dominadas por criminosos. Nem a polícia entra nesses territórios. Isso não só é injusto com quem paga a conta de luz em dia, como prejudica o resultado da empresa, que deixa de gerar riqueza e empregos.
O crime afasta investimentos, reduz postos de trabalho, empobrece. Onde há crime, falta desenvolvimento.
A economia do Espírito Santo é baseada na indústria do petróleo, celulose, minério e agricultura. Na última coluna, falei sobre empreendimentos de alta tecnologia e inovação em Vitória, que pode vir a ser um polo nacional de produção de veículos autônomos. Esse é um exemplo de que o estado tem grande potencial para diversificar sua economia, mas a violência é um obstáculo a ser superado. Se o estado conseguiu evoluir nos últimos dez anos, é sinal que dá para fazer.
Reduzir a criminalidade não é um assunto apenas do governo local, da polícia e da Justiça, como normalmente pensamos. É mais complexo que isso. Desmantelar organizações criminosas exige cooperação e ações em diversas outras áreas, como na financeira (para asfixiar a lavagem de dinheiro), na educação, na saúde, na maior presença do governo em diversos locais. O Atlas da Violência nos avisa que é preciso fazer mais no Espírito Santo.