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Crítica

"Wasp Network: Rede de Espiões", da Netflix, é apenas regular

Filme escrito e dirigido pelo francês Olivier Assayas tem ótimo elenco latino para contar a história real de uma rede de espionagem cubana que agiu nos EUA durante os anos 1990

Publicado em 19 de Junho de 2020 às 23:00

Públicado em 

19 jun 2020 às 23:00
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Wasp Network: Rede de Espiões
Wasp Network: Rede de Espiões Crédito: Netflix/Divulgação
Desde o início da década de 1960, com a deposição do ditador Fulgencio Batista e a ascensão de Fidal Castro ao poder de Cuba após a Revolução Cubana, os EUA resolveram bloquear totalmente o acesso à ilha, uma ameaça comunista crescente ao lado de casa e um país cada vez mais alinhado à então poderosíssima União Soviética. Os embargos foram cruéis para o desenvolvimento da ilha caribenha e custaram à economia cubana cerca de US$ 685 milhões por ano - curiosamente, os EUA gastaram, em média, quase cinco vezes esse valor por ano para manter a vigência do embargo.
Foi a partir de 1989, porém, que a situação apertou para Fidel e cia. A derrocada da antiga União Soviética resultou em uma crise devastadora em Cuba - as exportações caíram em mais de 60%, e as importações, em mais de 70%. O embargo causou uma escassez de suprimentos básicos e muita pobreza na ilha. Ele (o embargo) era tão duro que incluia até maneiras de punir empresas não-americanas que negociassem com o país dos Castro.
É nesse período temporal que se situa “Wasp Network: Rede de Espiões”, novo filme do francês Olivier Assayas (“Horas de Verão”, “Personal Shopper”) para a Netflix. O cineasta se cerca de nomes latinos famosos no mercado internacional para contar a história de desertores cubanos que chegam a Miami e passam a trabalhar para a Fundação Nacional Cubano-Americana. A FNCA cuidava de cubanos que chegavam à Flórida e organizava protestos contra os irmãos Castro; eles tinham seu próprio plano de poder e financiavam tudo com ligações com o tráfico de cocaína colombiana para os EUA.
Neste cenário, conhecemos René (Edgar Ramirez), um piloto cubano que rouba um avião e segue para os EUA deixando a esposa, Olga (Penélope Cruz) e a filha na ilha. Chegando lá, ele passa a entender como funcionam as engrenagens das operações de seus novos amigos. Pouco depois encontramos também Juan Pablo Roque (Wagner Moura), ex-militar cubano famoso por nadar até a base de Guantanamo para pedir asilo político. Nos EUA, era tratado como celebridade, tendo trabalhado tanto para o FBI quanto para a FNCA e se casado com a bela Ana Magarita (Ana de Armas) numa cerimônia luxuosa.
“Wasp Network”, como o subtítulo nacional sugere, é um filme de espiões e tem tudo o que o gênero pede. Há agentes duplos, traidores, espionagem e contraespionagem, tudo reunido de maneira eficaz por Assayas e potencializado pelo poder dos fatos, mas falta algo.
Filme
Filme "Wasp Network: Rede de Espiões", de Olivier Assayas para a Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
Com uma história que atravessa meia década, o roteiro se atropela em alguns momentos - personagens entram e saem da história sem grande impacto a não ser movimentar a narrativa. Algumas relações afetivas e de confiança também parecem apressadas e seriam melhor desenvolvidas com mais tempo ou com um recorte menos amplo. A verdade é que “Wasp Network” seria uma série incrível, mas tem problemas como filme.
O lado positivo é que Assayas entende o potencial do elenco que tem em mãos. Ao longo do filme, o espectador tem vontade de passar mais tempo com René, Olga, Juan Pablo e Ana; revivendo o par romântico de "Sérgio", também da Netflix, o brasileiro Wagner Moura e a cubana Ana de Armas são ótimos juntos, com muita química em tela e um entendimento no olhar. O cineasta francês se mostra plenamente ciente do carisma da atriz e a deixa desfilar pela tela. Como disse, a vontade seria passar mais tempo com os personagens, o que não acontece.
Filme
Filme "Wasp Network: Rede de Espiões", de Olivier Assayas para a Netflix Crédito: Netflix/Divulgação
A partir da metade do filme, “Wasp Network” tem uma mudança de narrativa, ganha ares quase documentais, com algumas imagens de arquivo para reforçar que tudo o que se vê em tela realmente aconteceu, pelo menos uma versão daquilo. O roteiro, escrito por Assasyas com base no livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais, carece de tensão e força dramática para que o espectador pudesse se interessar mais pelos personagens e entender o sofrimento deles. Até os momentos de maior tensão são resolvidos com facilidade e rapidez. Falta tempo.
Ao fim, “Wasp Network” é um competente, mas confuso, thriller de espionagem. A história é ótima, as atuações também, mas Assayas perde a mão ao optar por incluir vários personagens em recortes rápidos, mas de pouca contextualização, impedindo que o espectador se importe com o que vê em tela - isso torna o filme quase um documentário em alguns momentos. Ao fim, é um filme que funciona ao tratar de política internacional, mas que carece de força dramática quando resolve se aventurar por amor ou por um ideais.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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