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Crítica

"Ted Lasso", da Apple, é uma adorável comédia sobre futebol

Em "Ted Lasso", lançada pelo AppleTV+, o protagonista é um técnico de futebol americano contratado para comandar um clube da Premier League inglesa

Publicado em 19 de Outubro de 2020 às 05:00

Públicado em 

19 out 2020 às 05:00
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Série
Série "Ted Lasso", da AppteTV+ Crédito: AppleTV/Divulgação
Em 2013, o canal NBC Sports pagou uma fortuna, US$ 250 milhões, pelos direitos de transmissão da Premier League inglesa nos EUA. O problema é que os executivos “descobriram” que o público americano não entendia muito de futebol, o nosso futebol. Foi daí que nasceu Ted Lasso, personagem criado para mostrar que não é necessário um conhecimento profundo do esporte para acompanhá-lo pela TV, o que importa é a emoção e a qualidade do jogo.
Em um curta de quase cinco minutos, Ted Lasso (Jason Sudekis) é contratado por engano pelo Tottenham, um dos times mais tradicionais da Inglaterra, e fica por cerca de seis horas no cargo. Com uma combinação de arrogância e ignorância, o personagem se tornou cultuado e até ganhou outros vídeos um ano depois - todos são ótimos e merecem ser conferidos.
Conhecido por seu trabalho no “Saturday Night Live” e em filmes como o divertido “Família do Bagulho” (2013), Jason Sudekis acreditava no potencial daquele personagem. Ele então vendeu a ideia a Bill Lawrence, produtor de “Scrubs”, que embarcou na jornada. Devidamente intitulada “Ted Lasso”, a série de 10 episódios foi lançada este ano pelo AppleTV+, um serviço que aos poucos vai encorpando seu catálogo.
“Ted Lasso”, a série, recomeça a jornada do treinador desde o início. O Tottenham dá lugar ao fictício AFC Richmond, um clube de Londres cujo dono está em um processo de divórcio litigioso e a ex-esposa, Rebecca (Hannah Waddingham) acaba assumindo o controle. É ela a responsável pela contratação de Ted para o comando do time, o problema é que Lasso obviamente não entende nada do “nosso” futebol - tudo faz parte do plano de Rebecca para se vingar do ex-marido e afundar o time tão amado por ele.
Série
Série "Ted Lasso", da AppteTV+ Crédito: AppleTV/Divulgação
Ao contrário do personagem criado nos vídeos promocionais da NBC, o Ted Lasso da série é um cara mais amável, nada arrogante, simpático e com uma história pessoal para justificar o emprego. A série repete algumas das melhores piadas, mas não há problema nenhum - o público agora é mais amplo e a maioria não assistiu aos vídeos da NBC, pelo menos não por aqui, ou seja, pessoas que estão lendo este texto.
A construção do personagem é interessante, pois ele continua sendo um grande bonachão, uma pessoa irritantemente feliz o tempo todo, mas é também dono de um carisma irresistível que logo conquista todos que os cercam, dos torcedores que o xingam nas ruas do bairro (a Londres de “Ted Lasso” é bem pequena) à dona do time e os jogadores. O que conduz a série é o fato de o treinador não entender de futebol, mas entender de pessoas.
Série
Série "Ted Lasso", da AppteTV+ Crédito: AppleTV/Divulgação
É justamente no aspecto pessoal que o texto fica interessante. Com tempo para desenvolvimento (10 episódios de 30 minutos), acompanhamos também alguns arcos para coadjuvantes - como o conflito geracional de egos entre o veterano Roy Kent (Brett Goldstein) e o jovem e arrogante astro Jamie Tartt (Phil Dunster). Mais do que fazer um time ser melhor em campo, Ted Lasso tem que fazer seus jogadores serem pessoas melhores e despertar empatia em cada um deles. Entre os principais personagens, apenas o assistente Beard (Brendan Hunt) não tem um desenvolvimento maior, uma escolha provavelmente intencional que colabora com o jeitão misterioso do personagem.
A série tem um humor que se situa entre o deboche americano e o típico humor britânico - o que faz todo sentido quando lembramos que se trata de uma história sobre um americano em Londres. A decisão de suavizar o protagonista, tornando-o mais simpático e adorável, combina bem com o carisma de Jason Sudekis, ator com ótimo tempo de humor, mas que sabe dosar o aspecto físico para não se tornar um Adam Sandler.
Série
Série "Ted Lasso", da AppteTV+ Crédito: AppleTV/Divulgação
“Ted Lasso” é uma série surpreendentemente boa mesmo apostando em clichês de comédias televisivas e alguns arcos previsíveis (outros, no entanto, surpreendem). A série da Apple é confortável e afaga seu público; nenhum personagem é mau por ser mau, pois o texto tenta fazer que até as atitudes mais antipáticas de alguns deles sejam justificadas de alguma forma.
Apesar de ser uma série sobre um técnico e um time de futebol, o esporte é apenas um tempero. Futebol é um esporte difícil de ser filmado, com muita ação, reação e imprevisibilidade, então o roteiro se concentra nos bastidores e também não faz questão nenhuma de ser fiel. Ted e seus jogadores passam longe da representação da realidade, mas quem se importa? “Ted Lasso” é uma história de aprendizado e escolhas, uma comédia que não vai causar gargalhadas, mas vai deixar o público com um sorriso no rosto.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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