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Crítica

"Santo Maldito": Série brasileira do Star+ é uma boa surpresa

"Santo Maldito" tem Felipe Camargo como um professor ateu transformado em pastor após um possível milagre

Publicado em 09 de Fevereiro de 2023 às 02:06

Públicado em 

09 fev 2023 às 02:06
Rafael Braz

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Rafael Braz

Série brasileira
Série brasileira "Santo Maldito", com Felipe Camargo, lançada pelo Star+ Crédito: Star+/Divulgação
Durante os primeiros episódios de “Santo Maldito”, série lançada pelo Star+, há um crescente receio de estarmos diante de uma narrativa similar à dos filmes cristãos “Deus Não Está Morto”. Nessas obras, estudantes “desmascaram” professores ateus, jovens criados sem acreditar em nada encontram na fé o único caminho, famílias lutam contra o sistema para poder educar os filhos em casa da maneira que quiserem… Enfim, a franquia de filmes de baixo orçamento criada a partir do livro de Rice Brooks tem um único e explícito propósito: evangelizar.
A série brasileira “Santo Maldito” tem roteiro parecido com o dessas obras. Reinaldo (Felipe Camargo) é um professor de História e militante ateu, tendo, inclusive, publicado um livro sobre o tema. Um dia, sua esposa, Maria Clara (Ana Flávia Cavalcanti), é vítima de uma bala perdida após uma discussão de trânsito e entra em um coma que deixa os médicos pessimistas, só um “milagre” a faria acordar. Num ato de desespero, Reinaldo resolve desligar os aparelhos da esposa, mas, ao fazê-lo, ela acorda no mesmo momento.
Série brasileira
Série brasileira "Santo Maldito", com Felipe Camargo, lançada pelo Star+ Crédito: Star+/Divulgação
O problema é que tudo foi filmado por um jovem frequentador de uma pequena igreja da periferia. Quando o vídeo cai na mão de Samuel (Augusto Madeira), o pastor da congregação, ele oferece um bom dinheiro para que Reinaldo, com uma dívida gigantesca deixada pelo hospital, celebre um culto para seus fiéis. Samuel acredita que Reinaldo é o escolhido, um homem iluminado capaz de realizar milagres, e o professor encontra um lugar em que é ouvido, admirado, capaz de transformar vidas.
Em oito episódios, “Santo Maldito” lida com a dicotomia do professor ateu transformado em pastor. Reinaldo se sente valorizado na função, mas tem vergonha de assumi-la para sua família, pois sempre renegou a religião da mãe e criou a filha, Gabriela (Bábara Luz), como ateia. O personagem de Felipe Camargo é construído como os antagonistas dos supracitados filmes religiosos, um sujeito rabugento, autoritário e que se considera intelectualmente superior por não acreditar na existência de um deus, ou seja, o cenário está preparado para a virada em que ele se torna uma pessoa melhor quando passa a acreditar.
Série brasileira
Série brasileira "Santo Maldito", com Felipe Camargo, lançada pelo Star+ Crédito: Star+/Divulgação
“Santo Maldito”, felizmente, busca outros caminhos. O grande mérito da série com direção geral de Gustavo Bonafé (dos bons “Legalize Já” e “Lov3”, mas do péssimo “Doutrinador”) é não buscar sempre as soluções mais fáceis. A série do Star+ tem linguagem mais próxima do cinema do que da televisão, livrando-se, assim, dos vícios novelescos de muitas produções brasileiras. Assim, o diretor usa tempo para desenvolver o texto e seus personagens.
Felipe Camargo é ótimo como Reinaldo, um homem que mistura arrogância à dúvida, conhecimento e insegurança. Da mesma forma, Augusto Madeira se sai muito bem como o pastor Samuel, um sujeito ainda às voltas com o passado, mas de olho no presente. O roteiro desenvolve o passado de ambos em alguns flashbacks - enquanto o pastor tem uma história bem definida, Reinaldo é lembrado em fragmentos, quase como em um sonho.
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Há, porém, alguns arcos pouco explorados, como o da bispa Joyce (Helena Albergaria), uma concorrente de Samuel pelos fiéis da periferia, e, principalmente, o de Maria Clara, que poderia se trabalhado além das alegorias religiosas e do interesse do editor dos livros de Reinaldo. A bispa, mesmo que de modo bem superficial, tem sua relevância à trama, mas ela é introduzida como uma personagem a ser temida, mas perde força. Já a Maria Clara, quiseram dar um papel além de vítima, mãe e esposa, mas o desenvolvimento é insuficiente.
Ao apostar em saídas menos prováveis e até em algumas surpresas, “Santo Maldito” ganha força e conteúdo. A série se afasta do moralismo que cerca narrativas religiosas e até se permite explorar algumas nuances do tema com competência. A história tinha potencial para ser encerrada após uma temporada, como minissérie, mas os ganchos deixados pelo texto deixam claro o desejo de uma continuação que possa explorar os personagens deixados de lado e se aprofundar na dicotomia entre Reinaldo e Samuel.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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