A pandemia de Covid-19 completou um ano e, com isso, completamos um ano de necessários protocolos de isolamento e distanciamento social. O que mudou? Do março de 2020, com ruas vazias e pessoas se exercitando em suas varandas, ao março de 21, com as ruas e praias cheias, os bares lotados e o total desrespeito à situação enquanto o país tenta lidar com cerca de 300 mil mortos. As transformações comportamentais da pandemia foram registradas em 170 cartuns pelo cartunista Alpino no livro "Diário da Pandemia".
Natural de Baixo Guandu, o cartunista teve suas tiras “Luzia” e “Samanta” publicadas por quase 20 anos no Caderno 2 de A Gazeta, além de ter criado conteúdo para publicações como “Folha de São Paulo”, “Playboy” e o portal “Yahoo! Brasil”. Desde o início da pandemia, enquanto ainda assistíamos pela TV a situação se complicar na Itália e na Espanha, Alpino já estava de olho o que acontecia por lá.
“Me enviaram um vídeo em que italianos quarentenados passaram a tentar diminuir o estresse daquele momento cantando, de suas janelas, para os vizinhos. Outras pessoas recitavam poesias com microfones (...). Vi que aquele sentimento de medo tomava conta não apenas da Europa, mas do mundo e que embora eu não seja um bom cantor, poderia levar um pouco de alegria para as pessoas. Surgiu aí o primeiro cartum”, conta o cartunista.
O livro “Diário da Pandemia” foi lançado em formato digital, tem 170 cartuns e está disponível por R$ 10 na Amazon - assinantes do sistema Kindle Unlimited podem baixar o livro gratuitamente.
Na entrevista abaixo, Alpino fala sobre seu processo criativo em meio à pandemia, sobre como sua conta hackeada no Instagram foi um motivador do lançamento da coletânea de cartuns e sobre a importância da cultura para conseguirmos passar por tudo isso de uma maneira mais confortável. Confira.
Em que momento da pandemia você pensou: preciso começar a registrar tudo isso?
Foi bem no período da quarentena na Europa, em março, acredito. Me enviaram um vídeo em que italianos quarentenados passaram a tentar diminuir o estresse daquele momento cantando, de suas janelas, para os vizinhos. Outras pessoas recitavam poesias com microfones para que mais gente pudesse ouvir palavras de consolo e saber que não estavam sozinhas. Vi que aquele sentimento de medo tomava conta não apenas da Europa, mas do mundo e que embora eu não seja um bom cantor, poderia levar um pouco de alegria para as pessoas. Surgiu aí o primeiro cartum, que é a capa do e-book "Diário da Pandemia". Nele, um homem fala de seus vizinhos, um casal de strippers, que tentavam entreter as pessoas de sua varanda. Recebi muitos relatos em meu e-mail e no direct do Instagram, agradecendo por trazer uma certa "leveza" aos dias de muitas pessoas. Nesse ponto iniciei a produção diária que resultou nessa coletânea.
Como foi e tem sido pra você lidar com isso? Houve muita gente que trabalha com criatividade reclamando da falta dela durante o 2020.
Desde o começo, em especial ao tratar com os negacionistas, não me abandona a sensação que senti quando assisti "Titanic" pela primeira vez: pessoas desesperadas correndo pelo convés, o capitão inerte, o desespero dos oficiais e a orquestra tocando incessantemente enquanto o navio se parte ao meio.
Não me lembro de ter tido problema com a criatividade. Tive colegas me relatando que estavam se sentindo incapacitados de criar. Comigo se deu exatamente o oposto. Vi que todo mundo tentava dar alguma contribuição para o mundo não surtar totalmente e venho fazendo a minha parte, duas vezes ao dia, trazendo um pouco de cor ao cenário cinzento.
Sua percepção da situação e consequentemente a sua criação foi se transformando com o tempo?
Desde o primeiro anúncio da China, do que tentavam ocultar em Wuhan, eu entendi que seria 1918 de novo. Todos os ingredientes estavam lá. Foi como ter pegado emprestado o DeLorean de "De Volta Para o Futuro".
Meu trabalho evolui todos os dias. Quem vê minhas primeiras tirinhas de "Luzia" em A Gazeta, em 2001, vê que o tempo me atinge a minha prancheta incessantemente. Essa situação atual imprimiu em meu trabalho a necessidade de levar alento a quantas pessoas for possível, é como um divã público e gratuito.
Os cartuns são divertidos, mas também um convite para que observemos o nosso comportamento. É complicado andar sobre essa linha, correndo o risco de incomodar mais do que divertir?
O humor tem a obrigação de se fazer presente em situações como essa. É preciso adicionar perspectivas e leveza em tudo aquilo que fazemos. Meus cartuns sobre o tema mais conscientizam do que ironizam. Em todos eles é retratado que precisamos nos cuidar e cuidar de todos, não apenas de quem amamos. Em um dos meus cartuns favoritos, um rato está em quarentena, quando os dedos de um gato exibem na porta de sua toca um anúncio impresso: "Acabou a pandemia!"
As tiras foram todas disponibilizadas no seu instagram. Por que a ideia de reuni-las em um e-book?
Meu Instagram foi hackeado em janeiro de 2019 por um sujeito lá da Turquia. Ele pôs meu perfil à venda por 100 dólares. De lá pra cá, com o perfil @cartuns.alpino recriado, sofro tentativas de hackers toda semana à medida que o perfil vai atraindo a atenção das pessoas. Desde o roubo do perfil, passei a reunir o material publicado em coletâneas. O "Diário da Pandemia" é o meu quinto e-book com essas reuniões de cartuns. Decidi que se eu sofrer um novo ataque hacker não irei recriar o perfil. É desgastante todo o processo de ver um perfil com tantos amigos e lembranças ser levado embora. Então, se isso acontecer, as pessoas ao menos poderão conservar as coletâneas em formato digital.
A cultura, tão menosprezada, foi o que salvou as pessoas em 2020 e segue salvando em 21. O que você consumiu nesse período? Sentiu que houve um interesse maior ou menor pelo seu trabalho?
Quando o Covid-19 desembarcou aqui no Brasil, e bem antes de divulgarem a necessidade da quarentena, eu decidi diminuir o me ritmo de sair e a interação social. Me voltei para o estúdio, assinei Netflix, comecei a pôr a leitura adiada em dia, redescobri os quadrinhos europeus dos anos 50 e a coisa mais incrível: passei a conversar MUITO pelo WhatsApp com a família e amigos, alguns com os quais tinha perdido contato nos últimos trinta anos. O interesse pelo meu trabalho aumentou muito desde o ano passado, acredito que devido ao ato das pessoas terem se voltado mais para as mídias digitais como forma de interação humana. Algumas pessoas de outros países começaram a seguir o perfil do meu Instagram, solicitando traduções ou permissões para que eles mesmo traduzissem e divulgassem para mais pessoas. Ver o momento atual retratado naquele espaço tem tornado mais leve o dia de algumas pessoas. Devido a esse interesse inesperado, traduzi o "Diário da Pandemia" também para o inglês e, em breve, traduzirei para o espanhol e o francês.
Depois das 170 que estão no livro, você continua explorando o tema? Quanto mais acredita que ele pode render?
Encerrei os cartuns sobre o tema "Coronavírus" com o receio de me tornar repetitivo. Tudo está retratado naqueles 170 cartuns: o heroísmo dos profissionais da saúde, a cura, as vacinas, o distanciamento, a quarentena e até o negacionismo de muitos. Atualmente no @cartuns.alpino estou em uma fase onde os cartuns tratam das relações humanas em família, no trabalho, no amor e nas amizades. Fico feliz ao ver a identificação das pessoas com as situações retratadas nos cartuns e em vê-los sendo usados amplamente por psiquiatras, psicólogos, psicanalistas e terapeutas de todo o país.