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Rumo ao Oscar

"História de um Casamento", da Netflix, é o melhor filme de 2019

Drama de Noah Baumbach com Scarlett Johansson e Adam Driver acompanha o doloroso processo de separação de um casal

Publicado em 06 de Dezembro de 2019 às 16:09

Públicado em 

06 dez 2019 às 16:09
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Scarlett Johansson e Adam Driver em "História de Casamento" Crédito: Wilson Webb/Netflix

“Quão cruel você pode ser com aquele que você diz amar?”, pergunta a música “Accident Prone”, do Jawbreaker. Tal questionamento é refletido à perfeição em uma cena de “ História de um Casamento” ("Marriage Story", no original), lançado pela Netflix na última sexta-feira (6), durante uma discussão entre o casal de protagonistas.

É impossível assistir ao filme de Noah Baumbach (“Lula e a Baleia”, “Frances Ha”, “Os Meyerowitz”) e ficar indiferente. A tal história de casamento do título é, na verdade, uma história de separação. O roteiro acompanha as etapas do divórcio do casal Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver) e a mudança dela de Nova York, onde o marido é um renomado diretor de teatro, para Los Angeles, cidade em que vai filmar para voltar à Hollywood que deixou para se dedicar ao casamento.

A primeira sequência é tocante, com os dois listando as coisas que amam no outro; é o primeiro momento da relação, é o que faz com que o espectador se apaixone pelos personagens, é o início da nossa participação nesse casamento que se desfaz. Charlie é um sujeito talentoso, organizado, atencioso, excelente pai para Henry (Azhy Robertson), o filho do casal; Nicole, por sua vez, é aquela pessoa com quem é impossível não se encantar: atenciosa, talentosa, bonita e carinhosa. Parecem feitos um para o outro, mas logo em seguida se recusam a ler a lista durante uma terapia de casais. Algo está errado.

Iconoclasta, Baumbach desconstrói as imagens idealizadas que ele ajudou a criar. No decorrer do filme, o diretor enquadra seus personagens cada vez mais distantes antes de reuni-los em uma das cenas mais fortes do cinema recente. A relação se desmonta, o que era charme se torna uma característica irritante e as palavras passam a machucar. “Quão cruel você pode ser com aquele que você diz amar?”

O cineasta filma com calma e delicadeza, sem vilanizar um ou outro no processo de separação. Ambos cometem erros, são humanos. Semi-autobiográfico, o filme recria situações vivida por Baumbach em seu divórcio com a atriz Jennifer Jason Leigh, em 2010. A dor da situação é palpável.

O diretor ainda é sensível o suficiente para inserir doses de humor nos diálogos. Os advogados de ambos os lados, vividos por Laura Dern, Ray Liotta e Alan Alda, podem ser cruéis, mas também garantem risadas com estereótipos que outrora seriam conferidos aos protagonistas em uma “guerra dos sexos”, mas “História de Casamento” não é esse filme. Ao invés de cair em armadilhas fáceis, o roteiro nos faz criar apego ao casal e a questionar o motivo de eles não poderem estar mais juntos.

Oscar

Adam Driver entrega o papel de sua vida e dá um salto gigantesco ao Oscar de Melhor Ator do ano que vem. Por mais genial que Charlie seja, ele possui falhas que o tornam plausível - Adam entende essas características de seu personagem e as desenvolve paralelamente ao texto inicial, aquele em que Nicole descrevia o que amava no parceiro. A pessoa que em alguns momentos vemos em tela não parece ser a mesma descrita no texto inicial.

O mesmo, claro, acontece do outro lado. Nicole é um dínamo, o centro das atenções que gradualmente se sente desaparecendo; ela vai de ser o principal chamariz de uma peça independente a “apenas” uma atriz no espetáculo de seu genial marido. O baque é grande.

Scarlett Johansson e Adam Driver em "História de Casamento" Crédito: Wilson Webb/Netflix

Mesmo sem a explosão emocional de Adam Driver, Scarlett Johansson também está excelente - uma indicação ao Oscar não parece distante. Nicole é complexa, esconde uma tristeza atrás de uma aparente força para seguir em frente.

“História de Casamento” é um dos melhores, se não o melhor, filme de 2019. É provavelmente o trabalho mais forte de Noah Baumbach, conta com uma dupla de protagonistas perfeita e é mais próximo do público do que qualquer um de seus concorrentes. É a história de Charlie e Nicole, mas é também um drama universal sobre as minúcias de um relacionamento afetivo e as pequenas maldades cometidas dentro de uma relação.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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