Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Artigo

"E o Vento Levou..." é, sim, um filme racista, mas não merece ser apagado

Lançamento da HBO Max nos EUA com "E o Vento Levou..." como chamariz volta a colocar os holofotes sobre um dos maiores clássicos do cinema de Hollywood. Afinal, o filme é ou não racista?

Publicado em 14 de Junho de 2020 às 06:00

Públicado em 

14 jun 2020 às 06:00
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Crédito:
Não é de hoje que existem na indústria do cinema ressalvas quanto ao clássico “E o Vento Levou…” (1939). Desde que se começou a olhar para narrativas sob outros prismas, o premiado longa assinado por Victor Fleming (mas também dirigido por George Cukor e Sam Wood) é alvo de críticas.
Vencedor de oito Oscar em 1940, incluindo Melhor Filme, o filme com a história da rica sulista Scarlett O’Hara (Vivian Leigh) se passa durante a Guerra Civil americana e o posterior período conhecido como a Reconstrução. Scarlett, a heroína, é parte de uma família tradicional, com muitos escravos, todos eles retratados como felizes e conformados com a situação, reforçando estereótipos das pessoas de cor e ignorando os horrores da escravidão.
Baseada no livro homônimo de Margaret Mitchell, a trama também coloca os Confederados, ou seja, os exércitos do Sul do país, como heróis incompreendidos lutando pela liberdade individual das pessoas, e não para preservar seus direitos de possuir escravos e explorá-los. O Sul dos EUA, afinal, vivia do cultivo de algodão, atividade toda exercida por escravos que enriqueciam grandes fazendeiros como… a família de Scarlett O’Hara.
Apesar de todas as críticas frequentes, não havia nenhuma urgência em colocar nos holofotes um filme lançado há mais de 80 anos, porém, o recém-lançado serviço de streaming HBO Max (ainda não disponível no Brasil) o colocou de novo em pauta. A nova plataforma reúne títulos de HBO e Warner, detentora dos direitos de “E O Vento Levou…”, e colocou o filme de 1939 e outros clássicos como um dos grandes chamarizes do serviço - o catálogo da Warner é cheio de clássicos, ao contrário de Netflix, Amazon etc.
Nada demais, talvez, se não fosse pelo momento vivido pelos EUA após o brutal e cruel assassinato de George Floyd, um homem preto, pelo agora ex-policial Derek Chauvin, branco, em Minneapolis, no último dia 25 de maio. Contrariando recomendações de distanciamento social e quarentena (eles se encontram num estágio de abertura e controle maior que o nosso, mas ainda assim...), milhares de pessoas foram às ruas em protestos contra o racismo. A força do movimento foi tão grande que ele se espalhou por todo o mundo.
Foi motivado por esse “timing” que o premiado roteirista John Ridley, vencedor do Oscar por “12 Anos de Escravidão”, escreveu um artigo no “LA Times” solicitando a retirada momentânea do filme do catálogo do HBO Max. Ridley diz entender que o filme é um retrato de uma época, mas pondera se tratar de um recorte que legitima a escravidão e mostra os donos de escravos como nobres americanos.
O roteirista completa: “não sou a favor da censura. Não acho que ‘E o Vento Levou…’ tenha que ficar trancado em um porão. Somente peço que, após um respeitoso período, o filme seja reinserido no catálogo com outros filmes que ofereçam uma visão mais ampla de período histórico, filmes que mostrem quem realmente eram os Confederados e o que eles queriam. Ou talvez que o disponibilizem junto de conversas e narrativas sobre a importância de ter muitas vozes dividindo histórias sob olhares diferentes ao invés de apenas reforçar a cultura das maiorias”.
John Ridley é roteirista vencedor do Oscar por "12 Anos de Escravidão" Crédito:
Ninguém está pedindo que o filme seja apagado e que queimem suas cópias, apenas que não sirva o chamariz de um serviço popular em um momento em que a luta por igualdade racial está no centro das atenções. Já houve quem vociferasse que “o mundo está chato” e “cheio de lacração”, mas trata-se de uma questão de empatia, de se colocar em outra posição.
Não são justos também os argumentos de que “daqui a pouco não poderão fazer filmes sobre a Segunda Guerra”. Veja bem, imagine um filme sobre o nazismo que colocasse Hitler em um altar e o tratasse como um herói incompreendido derrotado pelos malvados capitalistas… É mais ou menos isso que “E o Vento Levou…” faz com os donos de escravos - o fato de ser um clássico não o exime de ser racista.
Os filmes são, sim, um registro histórico de uma época. Eles não devem ser destruídos, mas consumidos, com o passar dos anos, com outro olhar. A retirada momentânea do filme de catálogo pode não ser a melhor opção, mas é a melhor possível no momento. A HBO entendeu o pedido e o atendeu dizendo que quando o filme voltar ao catálogo, sem nenhum corte ou censura, a plataforma trará também conteúdos mais fiéis às dores da escravidão e à própria História americana. A empresa, assim, mostra ter entendido a frase de Angela Davis: “numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
O que explica derrota histórica de Lula no Senado (e qual recado envia ao STF)
Prosperidade vence Brasil de Farroupilha na Copa do Brasil Feminina 2026
Prosperidade elimina Brasil de Farroupilha nos pênaltis e avança na Copa do Brasil Feminina
Primavera-MT x Rio Branco, pela Copa Verde
Rio Branco empata, conta com combinação de resultado e avança na Copa Verde

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados