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Crítica: "The Feed" tenta resgatar a essência de "Black Mirror"

"The Feed", nova série da Amazon já disponível no Prime Video,  mostra um mundo dominado pela dependência tecnológica

Publicado em 02 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

02 dez 2019 às 04:00
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Personagens da série "The Feed" Crédito: Amazon/Divulgação

“Nossa, isso é muito ‘Black Mirror’”. Quantas vezes você ouviu essa expressão nos últimos anos? A série britânica aos poucos deixou seu nicho “cult” de ficção científica e caiu no gosto popular. O resultado disso é controverso: há quem ame as novas temporadas lançadas pela Netflix, mas também existem aqueles saudosos do “Black Mirror” raiz.

Lançada pela Amazon Prime Video na última semana “The Feed” tenta agradar a segunda turma com uma pegada mais próxima da realidade, criando um futuro plausível - não há uma tecnologia revolucionária ou nada que pareça muito distante da nossa realidade. O “feed” do título diz respeito a uma tecnologia que funciona como um Google Glass mais avançado, um dispositivo implantado no cérebro que permite que pessoas mandem mensagens, assistam a vídeos e até alterem a percepção do que os cerca com um simples comando mental, ou seja, a internet toda ao alcance de um simples desejo.

“The Feed” se baseia no livro homônimo escrito por Nick Clark Windo e cria uma sociedade dependente da tecnologia criada e constantemente aperfeiçoada pela família Hatfield, o que confere a série ares de drama familiar. O pai, Lawrence (David Thewlis), tenta se reconectar com o filho, Tom (Guy Burnet), enquanto Meredith (Michelle Fairley, de "Game of Thrones"), mãe e esposa, funciona como o rosto da empresa que deseja tornar o dispositivo menos restrito - uma maneira, segundo eles, de alcançar uma conectividade universal e promover a paz no mundo, mas é claro que não é bem assim. O problema se torna ainda maior quando um grupo de hackers rebeldes passa a invadir os sistema e tomar o controle da mente de pessoas inocentes as transformando em cruéis assassinos.

Na primeira metade da temporada (são 10 episódios no total), “The Feed” mergulha no drama familiar dos Hatfield e na desumanização da sociedade. Tom, por exemplo, lida com viciados em tecnologia com pesadas crises de abstinência. A nova sociedade da série, tal qual a nossa atual, é obcecada por popularidade e jovens chegam a extremos para conquistar seus “likes”.

Por mais atual que seja o tema, não é nada inédito. “Black Mirror” já tratou do assunto à sua maneira no episódio “Nosedive” (o primeiro da terceira temporada) e vemos isso diariamente nas redes sociais. A série também discute a privacidade (ou a falta dela): até que ponto os assistentes virtuais registram conversas? Qual o limite da privacidade?

Personagens da série "The Feed" Crédito: Amazon/Divulgação

“The Feed” não é desinteressante, mas tampouco traz novidades. Ainda, o roteiro parece ignorar outros problemas latentes como racismo (Lawrence tem um discurso quase eugenista). Ao deixar de lado questões relevantes, a série limita seu discurso à paranoia tecnológica, algo já discutido diversas vezes pela ficção e até mesmo pelo jornalismo.

Ao fim, a nova série da Amazon (que ironicamente é acusada de espionar usuários da Alexa, sua assistente virtual) não é ruim, mas erra no discurso generalista e ao não sair do lugar comum. A ideia funcionaria melhor se fosse focada na família Hatfield tendo a tecnologia como pano de fundo, pegada similar à da brilhante “Years and Years”, ou se margulhasse mais fundo no leque de possibilidades aberto pela premissa.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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