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Além do arco-íris

Crítica: "Judy" tem clichês e atuação grandiosa de Renée Zellweger

Misto de cinebiografia e homenagem a Judy Garland, "Judy: Muito Além do Arco-Íris" garantiu o Oscar de Melhor Atriz a Renée Zellweger

Publicado em 13 de Fevereiro de 2020 às 11:41

Públicado em 

13 fev 2020 às 11:41
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Renée Zellweger no filme "Judy: Muito Além do Arco-Íris" Crédito: Paris Filmes/Divulgação

Quem foi Judy Garland (1922 - 1969)? Famosa por viver a Dorothy do clássico “O Mágico de Oz” (1939), Garland não tinha a beleza padrão da época e, por isso, era ‘vendida’ pela MGM como a menina comum, que poderia ser a vizinha de quem assistia a seus filmes. A insegurança com a aparência deixou cicatrizes durante toda a vida da atriz e cantora. É nesse ponto de que “Judy - Muito Além do Arco-Íris” foca para criar uma espécie de cinebiografia de uma personagem lendária.

Sim, Judy Garland era uma personagem, como ela mesmo dizia: “sou Judy Garland apenas uma hora por noite. No resto do tempo eu sou parte de uma família”, afirmou em uma entrevista à TV britânica. O conflito entre o estrelato e as obrigações de uma mãe são o foco do filme de Rupert Goold que rendeu o Oscar de Melhor Atriz a Renée Zellweger.

Encontramos Judy em 1969, na reta final de sua carreira. Considerada um risco pelos estúdios (não aparecia nas filmagens eu chegava alterada) e bem distante dos dias de glória em Hollywood, ela relutava em partir para uma temporada de shows no Reino Unido.

Utilizando flashbacks com Judy adolescente (vivida por Darci Shaw), a narrativa traça diversos paralelos entre o início da carreira e a situação apresentada - acompanhamos de onde vem o vício em anfetaminas e calmantes, a preocupação estética, o alcoolismo, além de entender aspectos psicológicos da atriz.

A Judy de Renée é uma versão diferente, um mix entre atriz e personagem, duas mulheres que viveram o melhor e o pior na indústria. Zellweger não entrega uma atuação de imersão na personagem, como Marion Cotillard fez em “Piaf”, por exemplo, ao invés disso ela cria uma versão nova e se distancia do cosplay que rendeu o Oscar de Melhor Ator a Rami Malek por “Bohemian Rhapsody” ano passado. Vale ressaltar, ainda, que a atriz canta nos números musicais do filme.

Teatro

Adaptado de uma peça de teatro, o roteiro passa a impressão de que funciona melhor no palco. O texto é redondo, abre espaço para pessoas que circularam pela vida de Judy com foco em Mickey Deans (Finn Wittrock), último marido da atriz e quem cuidou de sua carreira até os últimos dias.

O aspecto teatral de “Judy” transforma o filme mais em uma homenagem do que em uma cinebiografia. Conhecemos detalhes da vida da biografada, mas é tudo superficial, com pouca informação, encadeando momentos-chave como esquetes de um programa de TV.

Renée Zellweger no filme "Judy: Muito Além do Arco-Íris" Crédito: Paris Filmes/Divulgação

A ideia de apresentar um recorte de um pequeno espaço de tempo garante a urgência, mas relega a notas de rodapé tudo o que aconteceu entre a adolescência e o momento escolhido - quase nada se tem de Liza Minnelli ou de três dos cinco maridos de Garland (apenas Sid Luft e Mickey Deans são mostrados).

Um ponto a se destacar é que o filme de Rupert Goold consegue criar a estrutura “apresentação - conflito - conclusão” com competência, mesmo que para isso faça uso de praticamente todos os clichês de biografias trágicas. O filme também consegue humanizar sua protagonista; Zellweger cria uma mulher complexa, que não entende ao certo a separação entre atuação e vida real.

“Judy” não é um filmaço, mas tampouco precisa ser. Com uma atriz que garante o filme, ele tem força para levar público aos cinemas e uma narrativa que segura pelo lado emocional. Mesmo extremamente brega em algumas sequências, “Judy” vai arrancar lágrimas de espectadores que buscam exatamente isso.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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