Quando o primeiro “Aterrorizante” (disponível na Amazon Prime Video) foi lançado, em 2016, o diretor Damien Leone havia tido um orçamento de apenas US$ 35 mil para transformar em longa-metragem o curta dirigido por ele cinco anos antes para outro filme, “All Hollow’s Eve”. O filme não foi um grande sucesso, mas, em circuito muito restrito, fez mais que o dobro do orçamento em bilheteria e acabou se tornando cultuado entre os fãs de terror slasher de baixo orçamento. Leone, um especialista em maquiagem e efeitos práticos, fez seu filme parecer muito maior, mas os problemas no roteiro, com personagens fazendo burrices a todo momento, não o levavam muito além de um slasher genérico com um ótimo protagonista.
Com um orçamento quase dez vezes maior e embalado pelo boca a boca da internet, “Aterrorizante 2” já fez mais de US$ 12 milhões nos EUA e no Canadá e agora chega aos cinemas brasileiros sustentado pela campanha de “ter feito pessoas vomitarem e desmaiarem durante as sessões”. Alguns cinemas, sustentando o hype, chegaram a distribuir sacos de vômitos com o ingresso, muito mais uma campanha de marketing do que algo realmente necessário.
“Aterrorizante 2” é um filme superior a seu antecessor em praticamente tudo; tem quase uma hora a mais de duração, mortes ainda mais violentas, um clima constante de tensão e um terceiro ato estranhíssimo. O filme tem início quando uma entidade misteriosa ressuscita o palhaço assassino Art (David Howard Thornton), às vésperas do Halloween (claro), e ele dá início a uma nova matança que inevitavelmente chegará até os irmãos Sienna (Lauren LaVera) e Johnathan (Elliott Fullam). Ainda às voltas com a morte do pai, eles vivem uma espécie de luto - ela tenta seguir com a vida, mas ele desenvolveu uma obsessão pela morte e por assassinos, entre eles o tal palhaço.
O filme de Damien Leone diverte pelo absurdo de sua violência e pelo grafismo que as torna menos reais. É visível, em diversos momentos, o uso de bonecos, e não há problema nenhum nisso, é a estética do filme baseada em efeitos práticos; a computação gráfica é usada em duas cenas e apenas como um detalhe, um charme em uma sequência toda construída com muitos efeitos práticos.
“Aterrorizante 2”, talvez até meio sem querer, já que foi filmado quase todo antes da pandemia, brinca com o culto ao macabro que ganhou força recentemente. Quando Johnathan quer se fantasiar do palhaço que matou geral um ano antes, Sienna retruca: “Você não vê ninguém por aí fantasiado de Jeffrey Dahmer. É um desrespeito com a família das vítimas”. Bem, como vimos após o sucesso da série da Netflix, as pessoas não se preocupam muito com a família das vítimas de assassinos famosos.
O roteiro, também de Leone, não se preocupa com explicações, deixando bem clara a intenção de ter o horror como protagonista, e é melhor assim. Art é um personagem assustador, meio real, meio sobrenatural, imprevisível e sádico; o cineasta se esforçou ao máximo para distanciá-lo do palhaço Pennywise criado por Stephen King em "It". Ao contrário do primeiro “Aterrorizante”, o segundo filme se preocupa com as possíveis vítimas, dando um pouco de profundidade à família de Sienna e Johnathan. Há, claro, vários coadjuvantes que estão ali apenas para serem violentamente mortos por Art (violentamente mesmo).
Narrativamente, “Aterrorizante 2” tem bons momentos. Todo primeiro ato, com a apresentação e ambientação de Sienna e Johnathan sendo construída em paralelo às primeiras mortes de Art, é muito bom. O texto constrói uma tensão constante, pois sabemos que um encontro entre os dois lados do filme é inevitável. Sienna é uma personagem interessante, que nos faz torcer por ela; é interessante como ela reúne estereótipos das mocinhas do cinema de terror, mas também é sexualizada em alguns momentos, como eram as primeiras vítimas dos assassinos nos filmes dos anos 1980. Damien Leone brinca com a expectativa do público por esses clichês, como a fantasia razoavelmente erotizada que pega fogo, frustrando a ânsia masculina de ver a mocinha naqueles trajes.
No segundo ato, quando a matança de fato tem início, o filme se torna um slasher convencional e dos bons. Art é assustador e imprevisível o suficiente para causar medo a cada aparição - não há nenhuma que não tenha violência ou gore, com o personagem mexendo em entranhas de mortos e até no próprio corpo. “Aterrorizante 2” busca o incômodo e quase sempre o alcança.
É no final, porém, que o filme perde sua força. O terceiro ato é quando nada mais faz sentido e a trama ganha ares diferentes. De repente estamos diante de uma espécie de profecia, em que o roteiro até ensaia se aprofundar antes, e de atitudes não muito inteligentes dos personagens, uma muleta da qual Damien Leone até escapa bem durante boa parte do texto.
Equilibrando tensão e alguns sustos gratuitos, “Aterrorizante 2” é um bom filme e um terror slasher muito bom. A estética retrô, tanto de trilha sonora quanto visualmente, mesmo que o filme se passe atualmente, desperta um resgate no espectador saudoso dos slashers noventistas. Damien Leone se mostra um bom diretor ao trabalhar com mais recursos, mas ainda sem grandes estúdios e com distribuição limitada. Com um terceiro filme já garantido e uma cena pós-crédito que abraça de vez o absurdo, resta saber quais os caminhos Art e Leone seguirão depois do sucesso.