É curiosa a maneira como a imprensa britânica tem tratado “Traição”, minissérie de espionagem da Netflix que lida com corrupção e intrigas no alto escalão do governo britânico e na agência de inteligência MI-6. Veículos como o “The Independent” e o “The Guardian” criticam a falta de inteligência do roteiro e até a pouca habilidade de Charlie Cox como um espião - tratam a série como uma oportunidade desperdiçada para Cox convencer como um possível próximo James Bond. As críticas talvez sejam motivadas por uma narrativa ficcionalizada ou devido à corrupção e aos esquemas do texto, mas o fato é que “Traição” passa longe de ser tão ruim.
Em cinco episódios de mais ou menos 40 minutos, a série criada por Matt Charman (indicado ao Oscar pelo ótimo “A Ponte de Espiões”) nunca fica parada. Logo de início conhecemos Adam (Charlie Cox, o Demolidor da Marvel), o jovem diretor-adjunto do MI-6, um sujeito afável e aparentemente querido por todos. A cena de sua introdução, por mais boba que pareça, é ótima ao desromantizar a agência de inteligência e ao já apresentar o forte vínculo dele com Callum (Samuel Leakey), seu filho. As coisas mudam quando ele recebe um comunicado: o diretor da agência, Sir Martin Angelis (Ciarán Hinds), é envenenado pela misteriosa Kara (Olga Kurilenko), uma agente russa, Adam assume o posto máximo da agência e se torna alvo de muitas ameaças, internas e externas.
Ainda no primeiro episódio, o roteiro entrega uma ligação antiga entre Adam e Kara, algo que pode comprometer sua atuação como diretor e também o coloca na mira da CIA. Mesmo sem grandes surpresas ou viradas mirabolantes, “Traição” é uma série de espionagem correta, um texto daqueles do tipo “não confie em ninguém”, pois todos os personagens parecem ter outros interesses além dos inicialmente apresentados.
A série é muito eficiente em prender o espectador sem muita enrolação. Na construção do grande conflito, vários arcos são apresentados e resolvidos - alguns rápidos demais, como um sequestro importante à trama, mas que, ainda assim, oferece uma satisfatória sensação de conclusão; é interessante como, mesmo encerrados, esses arcos continuam influenciando a narrativa. Apesar de ter em “Ponte de Espiões” seu maior crédito, Matt Charman mostra influência da ótima “The Americans”, talvez a melhor série recente de espionagem, mas tem noção de ter muito menos tempo de tela para contar sua história.
Talvez seja esse, inclusive, o grande problema de “Traição”. A resolução imediata desses arcos tira peso de algumas viradas, como a relação entre Kara e Adam, e as consequências do já citado sequestro. Da mesma forma, alguns personagens, como Martin Angelis, o diretor do MI-6, e alguns outros agentes, mereciam ser mais bem explorados para dar força à conclusão - mais personagens desenvolvidos significa mais suspeitos, mais possibilidades para pegar o espectador de surpresa sem sacrificar a lógica narrativa com alguma trapaça (o que a série não faz, vale ressaltar).
Apesar de não apresentar grandes novidades na estrutura (começar com um evento e voltar alguns dias para contar a história), “Traição” faz algumas escolhas de roteiro ousadas até para quem está acostumado ao gênero e corretamente não gasta muito tempo dan do pistas dessas escolhas, reforçando o impacto quando elas ganham a tela. Ao fim, ainda lidando com elas, o espectador tem um sentimento de satisfação incompleto.
“Traição” seria mais completa com uns três episódios a mais ou dividida em duas partes de cinco episódios cada. Charman teria mais tempo para se aprofundar na dinâmica entre Adam, Kara e Maddy (Oona Chaplin), assim como também poderia trabalhar com mais afinco a trama política e alguns flashbacks para que o espectador compreendesse melhor o peso do arco principal. Ainda assim, com boas atuações e direção razoável, a minissérie funciona como um grande e divertido filme de espionagem.