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Crítica

"A Garota na Fita", da Netflix, é série policial cheia de boas viradas

"A Garota na Fita" adapta suspense policial do espanhol Javier Castillo, que se tornou fenômeno de vendas durante a pandemia na Europa

Publicado em 27 de Janeiro de 2023 às 21:41

Públicado em 

27 jan 2023 às 21:41
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Série
Série "A Garota na Fita", da Netflix, adapta livro de sucesso de Javier Castillo Crédito: NIETE/NETFLIX
Por volta de 2014, o jovem escritor espanhol Javier Castillo lançou na internet seu primeiro romance, “O dia em que a sanidade foi perdida”. O livro foi um sucesso, ficou quase dois anos na lista de mais vendidos da Amazon na Europa, e ganhou uma continuação quatro anos depois, “O dia em que perdemos o amor”. Castillo se tornou um autor de mistério reconhecido por suas boas reviravoltas e uma escrita acessível - não demorou para surgirem as comparações com Agatha Christie, sua grande inspiração.
Em 2019, ele ainda lançou “Tudo o que aconteceu com Miranda Huff”, mas foi em 2020, durante o período de isolamento social na Espanha, que o escritor de Málaga se tornou um fenômeno, com o lançamento de “A Garota da Neve”, livro adaptado para a Netflix com o nome de “A Garota na Fita”. Como os livros dele não foram lançados no Brasil, a plataforma alterou a tradução regional da série para que não fosse confundida com uma adaptação do livro “A Garota na Neve”, de Danya Kukafka.
Em seis episódios, a série da Netflix acompanha a investigação do desaparecimento de Amaya, uma menina de cinco anos tirada dos pais durante as celebrações da festa dos Reis Magos, nas ruas de Málaga, em 2010. A série, que não é inspirada em nenhuma história real (é sempre bom ressaltar), tem início na celebração, quando conhecemos Ana (Loreto Mauléon) e Álvaro (Raúl Prieto), os pais de Amaya, momentos antes do desaparecimento.
Somos então levados para a protagonista, Miren (Milena Smit, de “Mães Paralelas” e “Alma”), uma estagiária de jornalismo ávida para trabalhar no caso, o que não lhe é permitido pelo chefe de redação, que opta por um jornalista mais experiente. Lidando com seus próprios traumas, e por isso querendo justiça para Amaya, Miren inicia uma investigação por conta própria e consegue algumas pistas, mas ainda está longe de desvendar o complicado caso.
Série
Série "A Garota na Fita", da Netflix, adapta livro de sucesso de Javier Castillo Crédito: Niete/Netflix
Ainda no primeiro episódio, a série dá um salto de seis anos e encontramos Miren já uma jornalista experiente, a única a não desistir do caso. Também encontramos Ana e Álvaro ainda em dor pelo desaparecimento sem solução da filha. Quando uma fita com um vídeo de Amaya pré-adolescente é enviado para Miren, novas linhas de investigação são imaginadas e a esperança, renovada.
“A Garota na Fita” segue a fórmula básica dos thrillers de investigação, mas é bem mais enxuta, por exemplo, do que as adaptações das obras de Harlan Coben (“Não Fale com Estranhos”, “O Inocente”, “Fique Comigo”, entre outras). A série constrói Miren como uma mulher traumatizada por um acontecimento com o qual ainda lida. Quando o texto conecta o trauma da protagonista o desaparecimento de Amaya, tudo parece um pouco forçado, mas, surpreendentemente, ele não faz dessa conexão seu arco central - existem algumas coincidências, mas o texto não depende delas para se resolver.
Série
Série "A Garota na Fita", da Netflix, adapta livro de sucesso de Javier Castillo Crédito: Niete/Netflix
Uma das características mais legais de “A Garota na Fita” é justamente o fato de o texto entender os momentos “sem saídas” de uma investigação, o que justifica seus saltos temporais. É interessante também como ele não se preocupa em preencher as lacunas de tudo o que o aconteceu aos personagens quando não os vemos em tela, tornando tudo um pouco mais orgânico e até mesmo economizando tempo. Em contrapartida, o recurso também prejudica o desenvolvimento dos personagens, principalmente os coadjuvantes, que acabam acionados pelo roteiro apenas quando este precisa de uma novidade, e causa algum estranhamento devido ao fato de alguns deles nem trocaram o corte de cabelo com o salto temporal.
Apesar das boas viradas trazidas do livro de Javier Castillo, a série também traz os clichês do gênero, a protagonista traumatizada, uma possível organização criminosa formada por pessoas poderosas, e, principalmente, a polícia totalmente ineficiente, garantindo a Miren o espaço necessário para brilhar. Neste ponto, é necessário ressaltar a composição de personagem de Milena Smit, que constrói uma mulher destruída, tentando se reerguer, e obrigada a rever antigos traumas.
Crédito:
“A Garota na Fita” é vendida como uma minissérie, mas deixa um gancho para uma nova temporada - provavelmente tudo depende da recepção da série. Ao final, mesmo que o arco principal seja detalhado e explicado (sem excesso de didatismo), a história de Miren ganha um toque de sutileza em sua solução, garantindo uma recompensa ao espectador e uma conclusão satisfatória para a minissérie, tenha ou não uma continuação para a história.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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