Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Crítica

"Todo Dia a Mesma Noite": série sobre a Boate Kiss é dolorosa e respeitosa

"Todo Dia a Mesma Noite", minissérie da Netflix sobre o incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria, respeita familiares ao não transformar incêndio em entretenimento

Publicado em 25 de Janeiro de 2023 às 21:37

Públicado em 

25 jan 2023 às 21:37
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

Minissérie
Minissérie "Todo Dia a Mesma Noite", da Netflix, reconta tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria Crédito: Guilherme Leporace/Netflix
Qual o distanciamento necessário para transformar uma tragédia em entretenimento? Talvez não haja uma resposta, mas a demanda (e a oferta) por conteúdos baseados em histórias reais nunca foi tão alta; de documentários sobre crimes até hoje não resolvidos a crimes brutais recontados com pouca ou nenhuma preocupação com a família das vítimas. Para cada produto como o ótimo podcast “Praia dos Ossos” há uma narrativa como “Dahmer”, sendo difícil estabelecer qualquer limite do que é ou não entretenimento.
Baseado no doloroso livro homônimo de Daniela Arbex, a minissérie “Todo Dia a Mesma Noite” reconta a tragédia que matou 242 pessoas, a maioria jovens, na Boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, há dez anos quase exatos, em 27 de janeiro de 2013. O livro transformado em minissérie pela Netflix é uma obra jornalística, um trabalho baseado em centenas de horas de entrevistas e apuração, no depoimento de sobreviventes, familiares das vítimas, enfermeiros, médicos e bombeiros, um texto que demandaria muito cuidado para ser adaptado de forma precisa e respeitosa.
“Todo Dia a Mesma Noite”, a minissérie da Netflix, encontra um bom tom para contar a história. Com roteiro de Gustavo Lipsztein, que tem entre seus créditos a boa série “Um Contra Todos” e o constrangedor “Polícia Federal: A Lei é Para Todos”, a série tem muito mais acertos do que equívocos.
Um dos grandes acertos da série é não utilizar o incêndio e as mortes como um clímax. Ao invés disso, o texto traz a tragédia logo no primeiro episódio. A série tem início nos apresentando vários jovens diferentes e suas famílias, cada um com um motivo diferente para estar na festa. Como o roteiro adapta nomes, cada um desses personagens representa um perfil de jovem que estava naquela noite na boate e não se sabe exatamente o que acontecerá com cada um deles.
Minissérie
Minissérie "Todo Dia a Mesma Noite", da Netflix, reconta tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria Crédito: Guilherme Leporace/Netflix
A sequência do incêndio é dolorosa, principalmente a que se passa no banheiro, com corpos pelo chão, fumaça e apenas as luzes dos celulares que recebiam chamadas de pais e mães dos jovens. A partir deste ponto, porém, a série dirigida por Júlia Rezende muda seu foco para os pais em busca de explicações e justiça e também para alguns sobreviventes.
O arco dos familiares é ótimo, com pais e mães vividos por Thelmo Fernandes, Debora Lamm, Bianca Byington, Raquel Karro, Paulo Gorgulho e Bel Kowarick, inspirados nos pais que fundaram a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, lidando com o luto, com a dor da ausência, mas também buscando penalizar os responsáveis. Compartilhamos com eles a dor - “Todo Dia a Mesma Noite” não é uma série fácil - e também a busca por justiça.
Minissérie
Minissérie "Todo Dia a Mesma Noite", da Netflix, reconta tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria Crédito: Guilherme Leporace/Netflix
Nos quatro episódios restantes, a série investe nessa luta em diferentes frentes. É curioso como, a princípio, o roteiro dá indícios de dedicar mais tempo às justificativas da banda e do dono da boate, mas acertadamente prefere dedicar seu tempo aos pais. A série se utiliza de saltos temporais que levam os personagens a momentos decisivos da história. Assim, acompanhamos indiciamentos, julgamentos e decisões nem sempre bem-vindas, mas que reforçam a luta dos pais e até conferem urgência ao texto - é bom ressaltar que ninguém foi devidamente punido, mesmo com todos os indícios apontando para dolo eventual de diversos envolvidos e até para casos de corrupção de autoridades.
Enquanto a história dos pais é sempre tensa, com ótimas atuações e carregada de emoção, há, em contrapartida, a impressão de acompanharmos pouco as histórias dos sobreviventes, representados por dois jovens que gradualmente aprendem a lidar com as cicatrizes físicas e mentais deixadas pela noite de 27 de janeiro de 2013. Outros pontos passíveis de crítica são o sotaque gaúcho caricato de alguns atores, que desaparecem em alguns momentos, e a exposição dos diálogos, principalmente no primeiro episódio (por exemplo: dentro da boate, em uma conversa natural, uma pessoa fala "Santa Maria tem sete universidades e 40 mil alunos"), mas nada disso tira a força do texto.
Minissérie
Minissérie "Todo Dia a Mesma Noite", da Netflix, reconta tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria Crédito: Guilherme Leporace/Netflix
A opção por focar na luta por justiça talvez seja justamente para colocar novamente os holofotes sobre o caso. Dez anos depois, políticos e autoridades já escaparam, mas ainda correm processos contra a banda e o dono da boate. Se essa é a ideia, “Todo Dia a Mesma Noite” cumpre sua missão; a série desperta indignação com o ocorrido e empatia com os pais das vítimas, convidando o espectador a, como disse Arbex em entrevista à “Folha de São Paulo”: “construir esse caso na memória coletiva do Brasil para que o que te indignou ao ver a série não aconteça mais. A gente precisa revisitar essa história e muitas outras, porque é urgente”.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
A incrível travessia do jovem que saiu do Peru e cruzou sozinho o Pacífico a remo por 15 meses
Harry Kane, jogador da Inglaterra
Com dois de Kane e Modric apático, Inglaterra goleia Croácia em estreia na Copa
Veículo abordado pela PMES transportava 175 "tabletes" de maconha.
Mais de 160 kg de maconha são apreendidos dentro de carro em Linhares

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados