Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Crônica

Sobre "Ainda estou aqui": um certo sorriso, vou te contar

A lembrança de que a ditadura tentou disfarçar a tortura que Rubens Paiva sofreu não aparece em cena. Mas aparece sim

Públicado em 

11 nov 2024 às 18:20
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

A madrugada tem a função social de enriquecer o meu pensar, e para além dele. Respingo água nas plantinhas da varanda, e me dou conta de que o mundo terreno se deixou cobrir pelo bizarro.
Se não, não haveria nele a luta de boxe e pancadarias similares consideradas esporte, por exemplo.
Neste exato momento saem do ringue Donald Trump, que ganhou a luta bizarra para decidir quem vai mandar e desmandar na gente, e Kamala Harris que vai ajudar a manejar a insuportável superioridade americana.
Fui assistir ao filme “Ainda Estou Aqui”, no qual Fernanda Montenegro, a mãe, em uma única cena, a finalíssima do espetáculo, lança um certo indescritível sorriso que brota de lábios clareando uma das histórias de vítimas da covarde e assassina ditadura que invadiu o próprio país, o golpe de 1964.
Enxergamos na tela do Cine Jardins, em Jardim da Penha, um único gesto tramado por uma campeã mundial do cinema, a síntese de tudo dentro e fora do filme dirigido por Walter Salles.
Os cineastas não precisaram contar diretamente que o deputado cassado, Rubens Paiva, foi sequestrado, torturado e assassinado nos cárceres vergonhosos, tudo na mais suja das razões, apenas por se opor pacificamente ao nojo nacional na época.
Então vou te contar.
O fino e verossímil sorriso de Fernanda Montenegro, cujo personagem que representa na tela padecia de doença demencial grave, resume uma tragédia de anos em três segundos.
As pessoas aplaudiram a exibição enquanto subiam na tela as letras dos créditos. Estava tudo guardado no inconsciente e na memória de todos nós, povo sobrevivente.
Cena do filme
Cena do filme "Ainda estou aqui", de Walter Salles Crédito: Divulgação
A lembrança de que a ditadura tentou disfarçar a tortura que Rubens sofreu não aparece em cena. Mas aparece sim.
Entre outras claras evidências, estava a seguinte mentira: Rubens teria se enforcado, pendurando-se em um teto cuja altura era insuficiente para esse ato, segundo perícia.
Era uma pessoa grande em todos os sentidos. Não conseguiria cometer suicídio mesmo que decidisse. Mas essa foi a explicação divulgada pelo sistema ditatorial.
Segundo a mídia mundial, Fernanda Torres deve concorrer ao Oscar de melhor atriz.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, lacrimejou.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Avião de pequeno porte cai sobre restaurante em cidade do RS
Imagem de destaque
Amigdalite de repetição: veja as formas de tratamento da condição
Imagem de destaque
Aliado de Arnaldinho sai do PSDB e se filia ao partido de Casagrande

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados