De uma mulher como tantas, nada de especial, que ela saiba. Eu sei. Que ame o futebol e goste de cozinhar peixe na brasa. Que me ajude a lavar louça, de preferência deixe para depois. É matéria eliminatória saber usar talheres, isto é, garfo na mão esquerda, faca na direita – ou seria o contrário? E colher prateada, com estilo suficiente. A de plástico sobre a mesa será punida com a morte, em garrote vil.
Que goste de amar de todos os jeitos e formatos que conhece e dos que não tenha a mínima ideia. Estarei disposto a colaborar com a plenitude dessa fêmea no que for solicitado ou convocado, conforme. Que goste de se vestir, que goste de se despir, dentro de um timing fagueiro se visitada por mim em clássicos rituais na abordagem afrodisíaca, que como a senhora sabe aparece estampada nos olhos. Há humanidade do nascimento à morte. Que saiba traduzir a língua. Esta exerce dupla essencial função: executa os instintos inconscientes, como o sabor, e os predominantes conscientes, a fala.
Que tenha bastante coragem e paciência infinita para me ouvir cantar perseguido de mim mesmo na viola e a grande orquestra no meu imaginário delirante.
Que goste de navegar de navio, mesmo que dure meses. Adore jogar naquelas máquinas viciadas dos vapores, como em todo cassino que se preze. Que verifique de novo se a língua, que é músculo polivalente, é ao mesmo tempo instrumento emissor da palavra, da linguagem. É o fenomenal encontro entre corpo e mente.
Que se envolva com inteligência e arte em defesa das pessoas – homens e mulheres – mas que seja capaz de evitar a ingenuidade e a estupidez que cria a polivalência de conceitos, perdendo a direção e o sentido das coisas. O falar por falar. A palavra entre duas pessoas é tão importante quanto o nascimento, que é a palavra entre mãe e bebê.
Imaginar-se e ser é a mesmíssima essência, deverá saber fazer e ser.
Que me ajude a amar filhas e netos, amando-me junto, ou fazendo-me acreditar nisso. Que evite a idiotice contida na maioria dos desenhos, dedicados a fazer barulho.
Não interfira – nem a favor nem contra – no processo de identificação das crianças com mãe ou pai. Ensiná-los a amar, pai e mãe, estando o casal juntos, ou não.
A senhora deve lembrar que o mundo não oferece respostas, só perguntas.
Se um dia eu vier a morrer quero ser cremado e colocado em um pote dourado em cima do piano.
E que meus amores não se cansem de afiná-los até o próprio Juízo Final, se não houver pedidos de vista do processo, como está na moda.