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Crônica

Os jogos da vida, das ruas e o sorriso de Alice

Aproveitei para escrever umas lembranças esportivas  enquanto assistia a uma partida demorada do chiquérrimo torneio de Roland Garros

Públicado em 

07 jun 2022 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Aos 36 anos, o espanhol Rafael Nadal foi campeão de Roland Garros pela 14ª vez
Aos 36 anos, o espanhol Rafael Nadal foi campeão de Roland Garros pela 14ª vez Crédito: Divulgação/Twitter/Roland Garros
Ligo para Alice, minha filha que mora em Paris, e lembro a ela que o espanhol Rafael Nadal estava jogando naquele exato momento com o sérvio Novak Djokovic, os dois maiorais do tênis desde que Roger Federer meio que se aposentou, participando do chiquérrimo torneio de Roland Garros.
- Pai, tênis eu só assisto às primeiras nove horas - mandou de primeira Alice.
Touché minha linda. Assisti à retransmissão pela TV de muitas partidas e as suas regras obsessivas e já cumpri 18 horas. Vou aproveitar para escrever essas mal traçadas linhas, e daqui a algumas horas volto lá na sala para assistir a mais umas duas horas.
Bem faz o Millôr Fernandes, que elegeu como jogo de raquetes predileto o frescobol, onde ninguém perde e os adversários fazem de um tudo para facilitar a vida do inimigo.
Meu irmão Sergio e eu dedicávamos nossas atléticas energias, em priscas eras da adolescência, aos jogos de xadrez, pingue-pongue, baralho e futebol na rua calçada de pedras Jacaré. A rua era uma ladeira. Controlar a bola em uma ladeira era a modalidade insubstituível de masoquismo juvenil.
Lembro de uma citação de uma amiga, Olga Soubbotnik, bela e genial, sobre as dificuldades da vida: Se os gênios da filosofia de todos os tempos pudessem reunir seus melhores trabalhos em uma coleção, e dessa coleção selecionassem um livro, e desse livro escolhessem uma página, e dessa página uma frase, sabe qual seria a frase:
“Viver não é biscoito”¹
O futebol no Brasil, o das peladas da garotada, era o fino da comunhão. Até na hora de convocar o time da tua rua para enfrentar os tenebrosos adversários da outra, era uma plantação de democracia. Bastava uma coisa qualquer em forma de bola e a liberdade de querer compor as nascentes agremiações.
- Se eu arranjar a bola você disputa?
- Digo
Pronto. Estava formado o Roland Garros da infância.
Outro dia assisti ao Pelé pela primeira vez dar uma opinião política.
- Espero que a Ucrânia saia vencedora deste massacre, imposto pela Rússia, o pandemônio que ameaça não cessar tão cedo.
Eu idolatro o Pelé, essa unanimidade pública entre os mortais.
Ele estava no auge da carreira e a ditadura de 64 também. Queriam porque queriam que ele se posicionasse, que isso que aquilo, a favor da invasão da pátria amada pela própria, que se autonomeava com o ridículo título de “Redentora”.
Quando fez seu milésimo gol no Maracanã – contra o Vasco, hehehe – carregado pelo gramado mostrou ser político verdadeiro:
- Vamos alimentar e cuidar das criancinhas de hoje para ter um Brasil justo e com comida para todos.
Podendo obter quantos votos quisesse nunca se candidatou a nada, mas até hoje continua eleito.
E vai continuar no cargo eternamente.
Vou lá na sala. Já vão três horas de tênis.
Hei de reunir meu time atual: Paula, Bento, Alice, Gael e Valentin, filhos e netos que carrego no meu coração, entre outros.
Surpreendo meu cão vira-lata, Dorian Gray, cantarolando “A certain Smile”
Dorian Gray, meu cão vira-lata, emitiu um certo sorriso.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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