Enquanto o país está invadido por uma chuva de canivetes - Mariana, pó preto, Brumadinho e Ninho do Urubu -, o carnaval não se abala, muito menos as escolas de samba.
Assisti ao samba capixaba, bem como a transmissão pela TV Gazeta, no Sambão do Povo. Calma minha senhora, não há contradição. Acontece que escola de samba não veio à Terra para ensinar samba, e sim a verdade escondida, a parte livre e móvel da gente, onde o povo ironicamente sorri e debocha de suas mazelas. Porém, ah, porém, com a maior das seriedades.
Qualquer bloco de rua abre a boca e os olhos. Samba não se aprende na escola, nem nas Escolas. Trata-se, quero crer, da maior e melhor manifestação da consciência política que fica reprimida em nós.
Não vi uma única palavra nas letras dos enredos e suas representações nos carros alegóricos, fantasias e naqueles divinos sapateados, digamos alienada. (Meu amigo Walter Taubner confessou que não viu a dança dos sapatos na passarela porque estava olhando outras coisas).
A música de um samba enredo e o humor que invade a torcida e vice-versa se integram. Ninguém consegue censurar o humor e a arte. As desastradas censuras das ditaduras – desculpem a redundância – não freiam a grande metáfora de Pessoa: “viver não é preciso”, isto é, não é exato.
De onde surgem as certeiras e corajosas metáforas dos enredos da escola de samba? O poder da criação sai avenida adentro e sacramenta a dor, dourada de alegria, cantando seus tormentos. Os temas de exaltação são aplaudidos, mas os que expressam a dor e o ódio às injustiças, estes ficam para sempre nas ruas, escadarias, bares...
Qualquer roda de samba é uma democracia. Qualquer um – mesmo – pode cantar. Se desafinar, alguém cobre. Se souber tocar, toca. Se não souber, toca também. A alegria contamina.
Jamais conheci um movimento verdadeiro e transformador como as escolas de samba de qualquer lugar. É claro que os inevitáveis oportunistas tentam tirar um tasco, como fazem com tudo. Mas ocorre justamente o contrário. (Não sei bem o porquê, de repente me surpreendo dando uma risadinha). Nada mais político do que uma risadinha de canto de boca.
No instante em que escrevo estas mal traçadas linhas, logo depois do desfile de Vitória, sei quem são os vencedores. Somos nós, o povo que participa de uma alegre e irônica demonstração de sabedoria. O carnaval invade os espaços, não tem preconceito.
Outro dia participei de um delicioso baile secreto à fantasia. Fui de vampiro melancólico – como os demais, estava fantasiado de mim mesmo.
Continua chovendo, como sempre, canivetes no Brasil.