Tom Jobim dizia que toda música brasileira é melancólica, por mais linda que seja. Alegria, alegria, só em "Garota de Ipanema".
A música sempre foi a alegria e a tristeza do povo brasileiro. Noel Rosa compôs uma para todos os carnavais, “Camisa Amarela”, passados, presentes e futuros. Isso em 1934, se não me engano.
Tristes e sempre denunciando alguma coisa, os sambas de enredo, ou não, tinham, como têm, a mágica propriedade de penetrar na alma do brasileiro, de todas as raças. Por mais distantes socialmente, mesmo as abastadas camadas sociais sucumbem diante das lágrimas compartilhadas ludicamente.
Mas hoje é carnaval, e instintivamente peguei minha camisa listrada e sentei na varanda. Logo eu, que já saí de diabo, de Santo Agostinho, pirata da perna de pau, olho de vidro e cara de mau. Valia tudo que mais parecesse com o maravilhoso caos, a festa das festas, o carnaval. Se tudo der certo, estarei cantando na sala, com um resistente violão, lembrando das inúmeras vezes em que fui feliz.
Chico Buarque em “Noite dos Mascarados” compõe: “Quem é você, adivinha se gosta de mim?". Fala de dois namorados mascarados, um não sabe quem é o outro. Lá pras tantas: “Mas é carnaval, não me diga mais quem é você. Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar, que hoje eu sou da maneira que você me quer, o que você pedir eu lhe dou, seja você quem for, seja o que Deus quiser”.
Não é de hoje que o Brasil só é cantado verdadeiramente pela arte de seus músicos.
O gênio de Chiquinha Gonzaga emprestou seu talento mostrando à torcida o “Ó Abre Alas”, inaugurando a mulher matreira em 1899. Foi gravada pela primeira vez no estilo marcha-rancho pela RCA Victor em disco bolachão. Somente em 1971, seria cantada pelas irmãs Linda e Dircinha Batista.
Foi oficializada como a primeira música gravada no país, depois, todo mundo gravou, até Norma Bengell. “Ó abre alas que eu quero passar, eu sou da Lira – importante agremiação musical da época – não posso negar”. Quem, especialmente dos anos 50 pra cá, não cantou?
João de Barro, em 1935, fez o povo cantar “Chiquita Bacana lá da Martinica se veste com uma casca de banana nanica, não usa vestido, não usa calção (êpa), inverno pra ela é pleno verão. Existencialista com toda razão, só faz o que manda o seu coração”.
Antigamente no Rio havia dois desfiles principais na Avenida Presidente Vargas: um com as Grandes Sociedades, com as autoridades das escolas de samba, e o outro com as escolas de samba propriamente ditas. Sambódromo nem pensar, que foi ideia e execução do então governador Leonel Brizola, que, além do mais, aproveitou a passarela do samba para adaptar escolinhas para o curso primário, debaixo das escadarias. Era um cara porreta, o Leonel.
Indo para a rua, neste tempo de carnaval, vamos passear na imaginação até quarta-feira, pois “é de fazer chorar quando o dia amanhece e eu vejo o frevo acabar, oh quarta-feira ingrata, chega tão depressa, só pra contrariar”. Veio de Pernambuco, não sei a data, mas estava impregnada do inevitável lamento nacional.
“Você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água não, cachaça vem do alambique e água vem do ribeirão.” Não havia quem deixasse de cantar no intervalo dos goles. Apesar do sucesso, foi composta pelos quase desconhecidos Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro e Heber Lobato, em 1953. Mas introduziram o sacrifício na marchinha: “Pode me faltar tudo na vida, arroz, feijão e pão. Pode me faltar manteiga, e tudo mais, não faz falta não, pode me faltar o amor, isso até acho graça. Só não quero é que me falte a danada da cachaça”.
Wilson Batista e Nássara, em 1949, homenagearam às lindas mulheres com mais de 30 – olha só – botando pra desfilar pelas ruas a “Balzaquiana”: “Não quero broto, não quero, não quero não, não sou garoto pra viver na ilusão, sete dias da semana eu preciso ver minha balzaquiana... Balzac atirou na pinta, mulher só depois dos trinta”.
Possivelmente na minha pretensiosa opinião, naqueles tempos, mulher com menos de 30 anos não possuía a permissão para amar e ser amada. É, pode ser.
O malandro Zé Keti e o amigo Pereira Mattos levantaram mil vozes com "Máscara Negra”, em 1966. “Quanto riso, ó quanta alegria, mais de mil palhaços no salão, arlequim está chorando pelo amor da colombina no meio da multidão”.
Enfim minha homenagem ao letrista que consegue encaixotar em prosa e verso a palavra “paralalepípedo” em uma música: “Vai passar nessa avenida um samba popular, cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar”.
Dá-lhe Chico Buarque de Holanda.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, vai sair de baiana.