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Paulo Bonates

Brasil precisa contar melhor sua própria história

Contar esta história para as crianças e adolescentes, assim como interpretá-la, é o que está faltando no país

Publicado em 11 de Março de 2019 às 20:42

Públicado em 

11 mar 2019 às 20:42
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Bandeira Nacional Brasileira Crédito: Divulgação
Não tive culpa. No dia em que apareci no mundo, a coisa já estava bagunçada por aqui. Segundo o noticiário que rolava na época, Charles de Gaulle pedia demissão. Em compensação, nasci ao mesmo tempo em que a Itália virou república. Isso não teria a menor importância se nós não estivéssemos hoje carentes de um verdadeiro Estado.
Além disso, junto comigo nasceram também Goya e Yves Lecoc. La Vie em Rose, de Edith Piaff, e o Super Homem estavam no início do sucesso. Gostei de saber que não vim sozinho para este planeta e este país. A queda de Getúlio Vargas, mui amigo do fascismo que rolava na Europa e que tinha representantes nacionais de grande influência popular, como o ultradireita Carlos Lacerda, provocou que parte dos brasileiros de todas as origens almejassem um estado socialista, liderado por Luís Carlos Prestes, codinome Cavaleiro da Esperança. Ele saía em caravana divulgando sua ideologia, principalmente pelo Sul do país. Como bom brasileiro, escondia nas mangas do colete a solução ideal para tudo e para todos.
Isto quer dizer que a nação estava repleta de patriotismo divergente. Todos tinham razão. Em plena era do rádio, jingles pelejavam, cada qual com sua musiquinha, a vitória final.
Lembro quando eu estava no grupo escolar que o Hino Nacional era cantado uma vez por mês. A interminável letra era obrigatória nas contracapas dos cadernos. Os alunos que tiravam os primeiros lugares entravam na sala de cerimônia dos colégios carregando a bandeira nacional e uma medalha de ouro e honra no peito. Ninguém era obrigado a nada. Com belíssima música e letra, exceto a palavra “fúlgida” que até hoje não sei o que significa, cantei, cantei, cantei. O amor a um país é fruto do orgulho e da história verdadeira de seu povo. Boníssima ideia voltar com o clima de respeito e consideração entre os brasileiros, tudo isso embalado em seu hino. Sem exageros, entretanto.
Por essa época, foi elaborada também a primeira Constituição dos Estados Unidos do Brasil, sob o governo de Eurico Gaspar Dutra. O país era risonho e franco, a Força Expedicionária Brasileira – a gloriosa FEB - e a eficiente Força Aérea Brasileira – FAB - tiveram desempenho memorável na sangrenta luta contra os nazistas. Morreu muita gente, minha senhora. No Rio, no Monumento dos Pracinhas, como eram chamados os soldados, estão listados milhares de bravos combatentes que honraram a pátria amada, idolatrada, salve, salve.
Contar esta história para as crianças e adolescentes, assim como interpretá-la, talvez seja no momento o que está faltando no Brasil.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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