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Crônica

A triste história das invasões ao Brasil

Conta a história paralela que, quando Pedro Álvares Cabral chegava ao que seria a Bahia, foi recebido com frutas, flores e danças, acolhendo com alegria e submissão os portugueses

Publicado em 17 de Janeiro de 2023 às 00:15

Públicado em 

17 jan 2023 às 00:15
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Se tem algo que ficou claro para mim na esculhambação visando sujar a democracia brasileira, após a posse do Lula na Presidência do Brasil, é que a democracia não tem lá grande consistência no terceiro mundo. Só é melhor do que todas as outras formas de governo.
Como diria Pedro Maia, grande chefe de reportagem de “O Diário”, o maior jornal da Rua Sete de Setembro, em Vitória, a democracia é a arte de governar o circo a partir da jaula da hiena. Mas é algo sagrado.
Jamais haverá tamanha esculhambação, nem antes nem depois no curso da história do Brasil. Troço feio, desafinado, violento. Parecia uma manada quando se dirigiram ao ataque ao governo. E literalmente não havia ninguém lá para defender os Três Poderes.
Imagem de vídeo de manifestante golpista mostra viatura caída em espelho d'água após invasão de prédios na Praça dos Três Poderes, em Brasília
Imagem de vídeo de manifestante golpista mostra viatura caída em espelho d'água após invasão de prédios na Praça dos Três Poderes, em Brasília Crédito: Reprodução / Twitter
Pois bem. Depois de amenizar a esculhambação geral e bizarra, foi a vez do legítimo legitimar-se. A democracia voltou às pressas, porque não soube defender-se. Estava sem o menor preparo, especialmente aqueles que deveriam garantir a ordem.
Passada a tempestade maior, com dispêndios e manhas, a República se reuniu inteira - isso inclui todos os Estados através dos governadores - e reinou um mínimo de paz em todo o território nacional.
Tenho cá umas dúvidas, não sobre a legitimidade, mas sobre quem vai operar onde e como no governo eleito. São 38 cabeças para exercitar o contraditório. Que Santo Agostinho os proteja.
Até parece que foi o Tite quem escalou a equipe de ministros e demais autoridades da cúpula. Quando uma das equipes ministeriais ficou atordoada com a falta de suficiente competência e apontou uma divergência conceitual, o trem parou.
- No meu governo discordar uns dos outros – define Lula - é um caminho.
O seu governo, que também é nosso, onde são postas tantas esperanças, mantém na pasta um cidadão que não sabe fazer conta de somar: 8 mais 4, igual a onze. Deu uma mostra.
O bravo povo brasileiro tem lá suas idiotices. Os eleitores não têm a menor ideia a respeito dos deveres e direitos. Os políticos fingem que falam a verdade e nós fingimos que acreditamos. Ninguém entende a língua falada nos altos escalões.
Conta a história paralela que, quando Pedro Álvares Cabral chegava ao que seria a Bahia, foi recebido com frutas, flores e danças, acolhendo com alegria e submissão os portugueses. Em troca, virou de lado as caravelas e seus canhões e mandou fogo cerrado. No fim do dia, apontou para a praia sua potente luneta e constatou que os nativos continuavam em festa, alguns irremediavelmente mortos.
Dizem que um experiente oficial de comando baixou os olhos, e com toda a tristeza do mundo balbuciou no ouvido de Pedro:
- Mestre, isso aqui não vai dar certo.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, acha que a situação continua a mesma

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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