Em 21 e 22 de março foram comemorados o Dia Internacional das Florestas e o Dia Mundial da Água, respectivamente. Essa conexão de datas comemorativas não ocorre por acaso. As florestas e a água estão intrinsecamente relacionadas.
As florestas apresentam um relevante papel no equilíbrio ambiental do planeta Terra e do ciclo hidrológico, pois influenciam o regime de chuvas, a regulação pedológica, a preservação das nascentes e dos cursos d’água e o controle dos níveis de cheias e inundações, prevenindo o assoreamento dos rios, erosão do solo, secas prolongadas e desertificação.
A qualidade e disponibilidade da água depende da recuperação e preservação das florestas. Tomando essa ideia como ponto de partida, o governo estadual, em 2011, lançou o Programa Reflorestar, uma política pública que possui como propósito principal a restauração do ciclo hidrológico a partir da conservação e recuperação da cobertura florestal, com geração de oportunidades e renda para o produtor rural, potencializando a adoção de práticas de manejo sustentável. O Reflorestar se caracteriza como um exemplo de política pública sustentável, pois converge ações ambientais, sociais e econômicas.
Com o objetivo de avaliar o impacto desse programa, o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama/ES) e a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), adotou uma metodologia científica padrão ouro por meio do Sistema de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (SiMAPP).
O método experimental consistiu no estabelecimento de amplos grupos de tratamento e controle de propriedades rurais localizadas no território capixaba, que foram catalogadas e comparadas por meio de geotecnologias. De um lado estavam as propriedades que aderiram ao programa e do outro as que não aderiram.
Além da avaliação, a pesquisa coordenada pelo IJSN analisou o comportamento e percepção do produtor rural em relação ao Reflorestar. Foi constatado elevado grau de satisfação e de conscientização sobre os benefícios da política pública. Ademais, mais de 95% dos produtores rurais que aderiram ao Reflorestar indicaram que visam manter as boas práticas de reflorestamento e recomendam essas técnicas aos vizinhos.
Para proceder a referida avaliação de impacto na cobertura florestal, o estudo adquiriu, via uma constelação de satélites da Coreia do Sul (KOMPSAT), um imageamento de todo o território do Espírito Santo, com resolução de 0,5 metros, atualizado para 2019 e 2020.
Essa aquisição possibilitou a realização do mapeamento mais recente de uso e cobertura do solo do estado. Dessa forma, a comparação com as imagens anteriores (2012-2015) foi procedida com o intuito de analisar a evolução do uso e cobertura do solo ao longo de 2012 a 2020.
Insta salientar que o novo imageamento do território capixaba consiste em um legado da pesquisa, que está disponível no grande repositório de bases cartográficas e de dados espaciais do Sistema Integrado de Bases Georreferenciadas do Espírito Santo (Geobases), podendo ser aplicado para diversos outros usos, como por exemplo, análises de áreas de risco pelas equipes da defesa civil, monitoramento de bacias hidrográficas e elaboração e revisão de Planos Diretores Municipais (PDMs).
A análise da evolução da cobertura florestal em todo o Espírito Santo, com base nos imageamentos, constatou que foram recuperados mais de 20 mil hectares de mata nativa no Espírito Santo entre 2012 e 2020, o que equivale a uma área de mais de 28 mil campos de futebol.
Diversas ações favoreceram esse resultado significativo, a saber, ampliação de áreas protegidas, difusão de práticas de manejo sustentável, produção de culturas agrícolas com tecnologias avançadas, melhor conscientização do produtor rural, estratégias para expandir o reflorestamento, maior fiscalização ao desmatamento, entre outras.
Por fim, a avaliação do Reflorestar revelou que, também, entre 2012 e 2020 as propriedades rurais atendidas pelo programa apresentaram aproximadamente 40% de área de vegetação natural a mais do que nas propriedades não atendidas. Desse valor, 26 pontos percentuais foram caracterizados como Mata Nativa em Estágio Inicial, o que demonstra uma significativa contribuição para a recuperação da Mata Atlântica.
É o Espírito Santo dando exemplo de política pública efetiva que favorece o fortalecimento do desenvolvimento sustentável na agenda verde mundial.
*Com coautoria de Pablo Jabor, doutor em Geografia, mestre em Geoprocessamento, pesquisador do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN)