Confesso que tenho uma certa predileção por ficção científica. Fascinava-me, na juventude, a leitura de textos de Júlio Verne. "Viagem à Lua", "Vinte Mil Léguas Submarinas", "Volta ao Mundo em Oitenta Dias", "Viagem ao Centro da Terra" e outros mais. Escritor francês, do século dezenove, escreveu mais de 100 livros, boa parte dos quais traduzidos para algo em torno de 150 idiomas. Aliás, um dos escritores mais traduzidos na história. Muitas das suas fascinantes aventuras, passado mais de século, tornaram-se realidade: O homem foi à lua e uma infinidade de satélites orbitam o nosso planeta.
Mas o que me chamou a atenção nesta semana, e tem a ver com a relação entre ficção e realidade, foi uma matéria publicada no jornal Valor, edição de segunda-feira. Com o título “Superprofissionais Ajudados por AI” (Inteligência Artificial), a referida matéria mostra um invento criado por um jovem pesquisador do MIT – Massachussetts Institute of Technology, que faculta a um ser humano dispor de uma espécie de extensão de seu cérebro. Um dispositivo – headset –, que conectado ao cérebro, ao ser acionado por este efetua operações – cálculos matemáticos, por exemplo -, sem que se tenha que fazer uso de um aplicativo de cálculo externo.
Isso significa que podemos já ter a figura de um profissional “turbinado”. O próprio autor do invento, Armav Kapur, de apenas 25 anos, chamou seu “brinquedo”, sugestivamente, de AlterEgo. Se já dispensávamos nossos cérebros de tarefas de cálculos matemáticos recorrendo a calculadoras e celulares, agora, por meio de uma simples mensagem enviada ao tal dispositivo pelo cérebro, as respostas são quase instantâneas. Segundo o próprio Armav, isso reduz o atrito do tempo na busca de respostas e soluções.
Ou seja, estamos encurtando as distâncias entre ficção e realidade. Sensação que sinto, por exemplo, quando revisito outro autor de ficção científica, este já mais atual, Isaac Asimov. Meu primeiro contato com os textos de Asimov foi até curioso. Aconteceu na década de 70, quando fazia curso de inglês na Universidade de Pittsburgh, em preparação para a pós-graduação. Na ocasião cientista do MIT, também escreveu mais de 100 livros sobre ficção científica. Serviu também para o meu aprendizado em inglês.
Chamou-me a atenção um livro dele sobre a educação do futuro – “Nine Tomorrows”, pela analogia que podemos fazer com a invenção de Armav. Nele, o autor descreve um civilização futura onde o ciclo educacional se completa com a implantação de um “chip” no cérebro de cada “estudante”. Esse chip conteria todo o estoque de conhecimento acumulado e seria, então, compatível com as habilidades até então desenvolvidas no processo educativo e demandadas pelo sociedade e pelo mercado.
Com certeza, ficção e realidade tendem a se aproximar cada vez mais; até se confundirem ou se fundirem.